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terça-feira, dezembro 06, 2016

3 acontecimentos culturais recentes que todos deviam conhecer


por Paulo Esteireiro | JM-Madeira

Nas últimas semanas, tive a oportunidade de assistir a três acontecimentos culturais, que me trouxeram à memória uma famosa citação do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, pertencente à sua peça “A Mãe” (1932). Vou citar uma variante da tradução mais fidedigna, que se afasta um pouco da versão original, mas que ficou amplamente conhecida por ter sido aproveitada pelo poeta e músico cubano Silvio Rodríguez, na introdução da sua canção “Sueño con serpientes”: “Há homens que lutam um dia e são bons; há outros que lutam um ano e são melhores; há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.” Os três acontecimentos culturais a que assisti recentemente foram protagonizados por pessoas e instituições que são realmente imprescindíveis à cultura madeirense, por terem lutado uma vida inteira em prol das artes performativas da Madeira.

O primeiro acontecimento foi o II Seminário de Bandas Filarmónicas da Região Autónoma da Madeira, que foi organizado pela Associação de Bandas Filarmónicas da Região Autónoma da Madeira (ABFRAM), em parceira com a Direção Regional de Cultura. As bandas filarmónicas têm tido um papel educativo de uma grande relevância na Madeira e são instituições centenárias, que têm contribuído de forma voluntariosa para a promoção e divulgação da arte musical e dos grandes compositores. Por isso, foi com muito agrado que vi a ABFRAM a entregar prémios a músicos que dedicaram décadas da sua vida à música e à sua comunidade. A direção da ABFRAM está de parabéns, nomeadamente o Fábio Teles e o Cláudio Vieira, pelo esforço que têm efetuado na tentativa de união, do reconhecimento público e da formação das diferentes bandas filarmónicas. Quem já tentou unir diferentes associações ou organizações na defesa de uma causa comum, tem consciência da dificuldade que é por vezes unir e construir projetos em conjunto.

O segundo acontecimento foi o musical “Grito de Esperança”. Este foi um evento único de grande qualidade e que só foi possível devido à autonomia e à vontade de um conjunto muito alargado de pessoas – professores, artistas, decisores políticos, diretores de escola, encarregados de educação, etc. –, em fazer melhor na área da educação artística. Para se chegar a um projeto desta envergadura, com direção artística, composição, coreografia e produção exclusivamente regionais, foi preciso um trabalho de décadas. Muitos dos professores, alunos, atores e músicos envolvidos no projeto foram já formados em plena autonomia. Olhar para a orquestra envolvida e para o palco foi olhar para a formação em artes realizada nas escolas da região e ver com satisfação os frutos em palco. Para muitos foi um musical de grande qualidade. Para outros foi um espetáculo fruto do trabalho de décadas, que culminou num grande “Grito de Esperança”. Parabéns ao diretor da Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia, Carlos Gonçalves, e a todos os envolvidos diretamente neste projeto, entre os quais se destacam: Virgílio Caldeira e Ricardo Araújo, na produção; Miguel Vieira, na encenação e na direção artística; João Caldeira, na composição e direção musical; Juliana Andrade, na coreografia; e Carolina Basílio, no libreto.

Finalmente, o terceiro acontecimento foi a antestreia de mais uma peça infantil pelo Teatro Experimental do Funchal, “Quasímodo, o Corcunda”, a que tive a possibilidade de assistir no passado dia 4 de dezembro. A peça é inspirada no clássico de Vítor Hugo, que já foi adaptado ao cinema pela Disney, e a versão do Teatro Experimental do Funchal, estreia hoje, 6 de dezembro, no Cine Teatro de Santo António, ficando em palco até ao dia 11 de fevereiro. Este é um espetáculo de cariz inclusivo contando com tradução para língua gestual e com a participação especial de intérpretes do Grupo de Mímica e Teatro Oficina Versus.

Com uma longevidade impressionante, o TEF tem contribuído ao longo de mais de 40 anos para a aprendizagem e o crescimento artístico de muitas crianças e jovens da Madeira, sendo uma instituição importantíssima no panorama da educação artística regional. Este espetáculo é mais uma produção dedicada às crianças da Madeira, estando vocacionado principalmente para as famílias e escolas. No entanto, creio que qualquer pessoa deverá aproveitar mais esta oportunidade para ver uma produção do TEF, encenada por Eduardo Luíz. Estou consciente que é uma verdade de “La Palice”, mas a energia e a emoção de ver um espetáculo com atores ao vivo é uma experiência completamente diferente de assistir a um programa com atores numa televisão. São ambas boas experiências, mas uma não substitui a outra. Ainda mais com os preços levados a cabo pelo TEF. Não há mesmo desculpa para ficar em casa. Pessoalmente, acho que é uma experiência em família, que todas as crianças deveriam ter regularmente. Os atores do TEF e a direção merecem todo o nosso apoio e fica aqui a minha sugestão de Natal: compre bilhetes para os seus familiares irem ver uma peça do TEF ou de outros artistas da Madeira, nos muitos espetáculos que decorrem nesta quadra festiva. Promover a cultura da Madeira está ao alcance de todos.

terça-feira, novembro 15, 2016

Os 5 melhores motivos para assistir ao musical "Grito de Esperança"

por Paulo Esteireiro em JM-Madeira

Nos próximos dias 25, 26 e 27 de novembro, será possível assistir à estreia mundial do Musical “Grito de Esperança”, um dos momentos altos das comemorações dos 40 anos de autonomia, organizadas pela Assembleia Legislativa da RAM e pelo Governo Regional da Madeira. Os espetáculos decorrem no Auditório do Centro de Congresso da Madeira (Casino) e envolvem mais de 140 artistas, a maior parte deles crianças e jovens da região. O espetáculo é coordenado pela Secretaria Regional de Educação, através dos Serviços de Educação Artística e Multimédia, que já produziram diversas óperas, bailados e musicais originais num passado recente. Se é verdade que a oportunidade de assistir a uma estreia mundial é já um motivo importante para presenciar este musical, também é verdade que existem outros motivos igualmente relevantes, que tornam imperdível este espetáculo. Aqui ficam aqueles que considero serem os cinco melhores motivos para não perder este evento:

​1.‘‘É uma história de homenagem aos madeirenses”. Apesar de não ser uma história linear e convencional, este musical procura homenagear a luta dos madeirenses por uma vida melhor. Como refere a autora do libreto do musical, Carolina Basílio, a «esperança por uma vida melhor, e a luta efetiva pela mudança, foram as forças motrizes da peça, que acabou por culminar numa homenagem aos madeirenses que nunca desistiram de lutar pelo melhor para si mesmos e para as gerações seguintes, e que ainda hoje, o fazem.»

​​2.“É cada vez mais rara a oportunidade de ver teatro com uma orquestra e um coro ao vivo de grandes dimensões”. Atualmente, por razões puramente económicas, as peças de teatro com música têm grupos de instrumentistas e cantores cada vez mais pequenos. Por vezes, em alguns casos, até se usam gravações em vez de músicos ao vivo. Assim, assistir a um musical com uma orquestra de 32 músicos e um coro de 50 vozes (infantis, juvenis e homens) é uma oportunidade rara na região. É de realçar a presença dos cordofones tradicionais madeirenses na composição desta orquestra.

​​3.“É uma oportunidade de apoiar os artistas regionais”. Cada vez mais, o apoio da comunidade envolvente é essencial para uma sociedade ter artistas de qualidade. Se não houver este apoio, corremos o risco de no futuro sermos uma região com pouca ou nenhuma produção artística regional. Pessoalmente, acredito que este é um ponto em que estamos todos de acordo e que se trata de um cenário a evitar. Relembro que em palco estarão 142 artistas – maioritariamente crianças e jovens –, entre músicos, cantores, bailarinos e atores. A melhor forma de agradecer e reconhecer a criatividade, a inovação e a performance de tantos artistas madeirenses, seria ver os três espetáculos esgotados.

​​4.“É uma oportunidade de assistir a uma obra importante de um dos mais jovens e talentosos compositores madeirenses para teatro: João Caldeira”. É sabido que a união entre música e teatro tem imenso potencial. Ao longo da história, os principais compositores têm sabido explorar esta relação e criado números artísticos diferenciados, com o propósito de interpretar corretamente as personagens e os diferentes momentos da ação, utilizando linguagens musicais próximas do discurso (recitativos), canções (árias), partes orquestrais e danças. No caso do compositor João Caldeira, é-lhe reconhecida a capacidade para saber articular as componentes da dramaturgia de uma peça, tal como demonstra o seu seguinte testemunho acerca da música de “Grito de Esperança”: «o conteúdo musical procura refletir todas as “nuances”, emoções; procura descrever cada personagem por aquilo que cada uma representa; e reforça o peso emocional de cada cena para que o público consiga captar, de uma forma mais enriquecida, todas as cenas desta obra.»

​​5.“Finalmente, é uma oportunidade de ter uma experiência emocional e intelectual diferente do habitual”. O conceito da música como uma experiência intelectual emergiu principalmente na segunda metade do século XVIII. Este musical procura seguir essa linha e constituir uma experiência emocional, mas também intelectual para os espectadores. Como refere o diretor artístico e encenador Miguel Vieira, este musical «serve-se de uma linguagem estética e dramática contemporânea, procurando ir ao encontro de uma linguagem atual e própria dos nossos dias e meios de comunicação. […] Pretende-se inovar, numa linguagem atual e própria dos nossos dias, onde as tecnologias e meios cibernéticos, se misturam com as realidades atuais, passadas e futuras. Para esta vertente intelectual e emocional do espetáculo, também é muito importante o trabalho de criação coreográfica desenvolvido pela bailarina Juliana Andrade, que dividiu a dança, no musical, em dois trabalhos distintos: o corpo de baile e dois bailarinos, que irão ter um papel central na ação, ao nível do teatro e da música.

Por tudo isto, creio que existem bons motivos para não perder este espetáculo único na região. Creio, igualmente, que é de salientar o trabalho desenvolvido na última década pela Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia, na produção de espetáculos que unem teatro e música e que são arrojados esteticamente. Nos últimos anos, a DSEAM produziu três adaptações de óperas clássicas e românticas; um bailado original; duas óperas originais: e dois musicais originais. Há um percurso estético realizado com o público e o musical “Grito de Esperança” é mais um momento desse caminhar artístico.http://www.jm-madeira.pt/artigos/os-5-melhores-motivos-para-assistir-ao-musical-%E2%80%9Cgrito-de-esperan%C3%A7a%E2%80%9D

sábado, novembro 05, 2016

10 Danças para Braguinha / 10 Dances for Braguinha de Paulo Esteireiro



Vídeo do meu novo livro de partituras com CD "10 Danças para Braguinha".
Compre o livro em areavirtual.pt e apoie as atividades da Associação Regional de Educação Artística (as vendas desta edição revertem na íntegra para esta associação).

quarta-feira, novembro 02, 2016

A verdade sobre a fusão de duas escolas de artes



por Paulo Esteireiro, JM-Madeira

Em 1 de junho de 2016, duas das mais prestigiadas instituições educativas de artes performativas norte-americanas anunciaram que já eram oficialmente uma única organização. As instituições em causa são as conceituadas escolas de artes do Conservatório de Boston e da Berklee College of Music. O Conservatório de Boston foi fundado em 1867 e nomeado recentemente um dos “melhores dos Estados Unidos”, sendo a sua área de ação no âmbito da música clássica. Por sua vez, a Berklee tem cerca de 70 anos de atividade e a sua área de ensino centra-se na música contemporânea – aqui entendida, segundo o conceito norte-americano, como toda a música moderna composta para o mercado atual (pop-rock, jazz, electrónica, música para filmes, etc.) –, tendo os seus alunos sido premiados com mais de 300 Grammys e Latin Grammy Awards. Tendo ambas as instituições um elevado sucesso nas suas áreas respetivas, porque motivos estas duas escolas de artes performativas decidiram fundir-se numa única instituição?

A história desta fusão começou um ano antes, em junho de 2015, altura em que as duas organizações assinaram um memorando de entendimento que abriu o caminho para a fusão. Nesse memorando, é relevante indicar que o principal objetivo não era assumidamente financeiro, apesar dos números envolvidos serem impressionantes. A Berklee é um colosso financeiro cujo valor se aproxima dos 100 milhões de dólares e a junção com o Conservatório de Boston irá transformar a nova instituição num valor combinado de 121 milhões de dólares (!). Tendo em consideração os valores envolvidos e a ambição da organização recém-criada, a nova direção conjunta das duas instituições assumiu inclusivamente que, ao longo dos próximos cinco anos, a instituição vai: fazer investimentos significativos no desenvolvimento de novos programas; rever algumas áreas de negócio; procurar aumentar o capital; e melhorar a área de comunicação. Assim, é evidente que a questão financeira não foi um aspeto menor e não pode ser completamente descartada como um dos motivos que conduziram à fusão.

No entanto, apesar disso, no memorando assumia-se que o objetivo principal era a nova organização educativa alcançar a liderança no ensino das artes performativas, através da “criação de uma resposta visionária para as necessidades em rápida evolução dos artistas do século XXI”. Ou seja, a verdade é que o principal motivo é educacional. Com esta fusão, a instituição criada passa a disponibilizar uma oferta educativa que vai desde as obras clássicas tradicionais, até à criação de novas obras artísticas originais que combinem música, dança, teatro e tecnologia. Acima de tudo, a fusão torna esta instituição uma das mais modernas do mundo na variedade e qualidade da oferta educativa em artes performativas.

Ainda segundo o memorando, a fusão permitirá que ambas as escolas possam alavancar os seus pontos fortes individuais na criação conjunta de novos cursos e programas. O Conservatório de Boston tem entre os seus pontos fortes o excelente nível de ensino na música clássica, na ópera, na dança, na representação e no teatro musical. Por sua vez, a Berklee é famosa pela elevada qualidade de ensino em áreas como: a improvisação e a música contemporânea; a tecnologia aplicada à música; a composição de canções; a gestão de todos os aspetos relacionados com o comércio musical; a musicoterapia; o design de som; a produção; a composição para televisão e cinema; e o ensino à distância.

É evidente que uma fusão destas não é feita sem um sentido estratégico muito forte. As duas instituições envolvidas entenderam conjuntamente que é necessária uma modernização constante da educação artística e que ambas as instituições têm muito a ganhar com esta união de recursos. Em última instância, é a sua sobrevivência futura que está em causa, sendo importante anteciparem-se a outras escolas concorrentes.

A área da educação artística em Portugal tem igualmente de se modernizar e isso obriga necessariamente a uma gestão cuidadosa dos poucos recursos existentes, para que seja possível uma aposta em áreas tecnológicas que permitam a inovação e a promoção dos artistas portugueses. Tal como no caso de Boston, é importante acompanharmos o estado atual da indústria musical e não mantermos as nossas escolas oficiais focadas exclusivamente no ensino clássico, apesar de todas as qualidades que este modelo educativo tem, como já várias vezes defendi. O grande valor do ensino da música clássica não pode, no entanto, ofuscar a necessidade de se oferecer oportunidades às crianças e jovens de um estudo aprofundado, em todo o espectro das artes do espetáculo, como estrategicamente fizeram as duas maiores escolas de artes de Boston.

terça-feira, outubro 18, 2016

Como melhorar a cultura em 55 minutos


por Paulo Esteireiro em JM-Madeira

Albert Einstein supostamente terá dito que «se tivesse uma hora para resolver um problema, e a minha vida dependesse disso, eu utilizaria os primeiros 55 minutos a estudar o problema e apenas cinco minutos a pensar nas soluções.» É verdade que a atribuição da autoria desta frase a Einstein é um pouco duvidosa, fruto dos novos tempos em que somos bombardeados com excesso de informação falsa. No entanto, mesmo que Einstein nunca tenha proferido esta afirmação, ela contém uma mensagem forte, que tem levado milhares de pessoas de todo o mundo a partilhá-la e a identificar-se com ela. E o motivo para o sucesso desta suposta afirmação de Einstein é claro: constantemente vemos à nossa volta a tentação para implementar soluções rápidas e superficiais, em problemas complexos, que não compreendemos e para os quais não gastámos tempo a realizar estudos, que contribuam para a melhoria da nossa compreensão dos problemas. O resultado acaba por ser sempre o mesmo: gasta-se energia em soluções para problemas pouco importantes – em detrimento de questões prioritárias – ou em soluções que só resolvem superficialmente os problemas e de forma pouco sustentável.

Isto acontece no local de trabalho, por exemplo, quando se gasta tempo – por vezes meses ou anos – a conceber produtos ou serviços que ninguém quer ou tem interesse, o que poderia talvez ser evitado com a realização de um estudo que tivesse ouvido previamente as pessoas interessadas. O mesmo acontece no plano político, onde é frequente vermos as verbas públicas serem distribuídas sem uma estratégia de fundo ou qualquer estudo que permita conhecer melhor o terreno ou o desenvolvimento de um plano de ação. E não há como fugir. Mesmo que tenhamos uma intuição e uma sensibilidade elevada, sem estudos aprofundados que envolvam os intervenientes de uma área, é difícil saber quais são os reais problemas, definir as prioridades e, consequentemente, ter uma estratégia e um plano de ação. Creio que todos nós teremos em mente alguns casos em que se desbaratou dinheiros públicos, por falta de estudos e debates, não sendo necessário aqui entrar em casos concretos polémicos desnecessariamente.

O caso inglês é, em alguns campos, um bom exemplo. É prática comum o governo comissionar, numa personalidade de relevo, a realização de um estudo ou relatório que vise a melhoria da área da especialidade da personalidade em causa. Por exemplo, Darren Henley, o atual “Chief Executive” do Arts Council England (Conselho das Artes de Inglaterra), realizou dois estudos independentes para o Governo sobre educação musical e cultural – a pedido do Secretário de Estado da Educação –, que resultaram no Plano Nacional para a Educação Musical, e num conjunto de redes de parcerias, tais como o Programa de Escolas e Museus, “BFI Film Academy Network” (Rede da Academia do Instituto de Cinema Britânico) a “National Youth Dance Company” (Companhia Nacional Juvenil de Dança), a “Heritage Schools”, etc.

Para além das consequências diretas, acima referidas, dos dois relatórios comissionados por Darren Henley, um dos aspetos que mais me impressionou foi o facto do departamento de educação, que encomendou os estudos, ter realizado um documento em que indicava a sua resposta a cada uma das recomendações propostas por Henley. Por aqui se vê a grande importância atribuída aos estudos realizados, que tiveram direito a uma resposta exaustiva governamental, onde se indicava o parecer oficial e as medidas que iriam ser tomadas. Muito diferente do clássico estudo para “meter na gaveta”.

Um outro aspeto muito relevante destes estudos de Henley foi o grande envolvimento de personalidades e organizações. Num deles, foram ouvidas 972 pessoas e organizações, tendo sido a partir deste conjunto muito alargado de propostas que foram organizadas as recomendações do estudo.

Pessoalmente, acho que seria profundamente benéfico as entidades competentes, quer municipais, quer governamentais, ouvirem novamente os agentes culturais e as organizações do setor cultural, para desta vez se fazer um relatório com recomendações e posteriormente um plano regional para a cultura, ao exemplo do que é feito para o turismo. Creio que cada vez mais é urgente reunir as diferentes entidades e personalidades em projetos conjuntos e as autoridades públicas estão numa posição privilegiada para fazer essa união. Cada organização dificilmente terá dimensão para crescer ou mesmo sobreviver individualmente aos obstáculos que se vivem na área cultural e conseguir fontes de financiamento (salvo raras e honrosas exceções, que só vêm confirmar a regra). No desporto os clubes têm de se unir para terem um campeonato e jogarem entre si, apesar das discórdias. É hora de na cultura criarmos projetos conjuntos que levem a unir os esforços das diferentes entidades. Quando iremos gastar os nossos “55 minutos” e deixar de seguir as sensibilidades e intuições pessoais?

terça-feira, outubro 04, 2016

Chamada de artigos para Revista Portuguesa de Educação Artística Volume 7, Números 1 e 2 (2017)

Chamada de artigos 
Revista Portuguesa de Educação Artística, Volume 7, Números 1 e 2 (2017)

 
Convidamos todos os interessados a enviarem propostas de artigos para o e-mail paulo.esteireiro@gmail.com ourevista.artistica@gmail.com até ao dia 02 de dezembro de 2016.

A RPEA é Indexada e Referenciada pelas seguintes bases de dados internacionais de publicações periódicas científicas:
- ERIH PLUS - European Reference Index for the Humanities and Social Sciences
- Latindex - Sistema Regional de Informação para as Revistas Científicas de América Latina, Caribe, Espanha e Portugal
- DOAJ - Directory of Open Access Journals

Saiba mais informações e consulte as normas de publicação em:
http://www02.madeira-edu.pt/dre/educacao_artistica_multimedia/investigacao_edicoes/revista_ea.aspx

7 Excelentes Motivos para Estudar um Instrumento Musical

por Paulo Esteireiro em JM-Madeira

Ainda no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Música, que se celebrou no passado dia 1 outubro, e tendo em consideração que estamos também na fase de início de um novo ano letivo, achei que seria importante sintetizar num pequeno texto alguns dos principais motivos para estudar um instrumento musical. Numa época em que há uma elevada oferta de entretenimentos para os nossos tempos livres, acredito que o estudo de um instrumento musical ainda é uma das atividades mais importantes e com maior impacto em várias dimensões da nossa vida. Assim, aqui ficam o que considero serem sete excelentes motivos para aprender um instrumento musical.

1. Contribui para conhecermos melhor a história cultural. O ensino da música clássica terá os seus defeitos, mas permite, como em poucas áreas, a aprendizagem de uma variedade de tipos de música e de períodos históricos. Através da música aprende-se a conhecer estilos diversificados como o medieval, o renascentista, o barroco, o clássico, o romântico, o moderno, o contemporâneo, a música tradicional e a popular, entre outros. A música em si é história e estudá-la permite-nos realizar uma autêntica viagem aos costumes do passado.

2. Aumenta a nossa capacidade de concentração. Tocar um instrumento requer que articulemos diversas tarefas em simultâneo – por vezes em longos períodos de tempo, consoante a duração das peças musicais –, o que só é possível com uma grande capacidade de concentração. O músico tem de pensar em atividades variadas como pulsação, ritmo, escalas, acordes, mão direita, mão esquerda, leitura de uma pauta – incluindo ler sempre à frente do que está a tocar – e audição, avaliando criticamente a correção do que está a executar. Esta capacidade de concentração é das coisas mais difíceis no início de uma atividade musical e que é muito trabalhada pelos professores com os seus alunos.

3. Aumenta a nossa capacidade de memória. Além do aumento da capacidade de concentração, uma das formas de conseguir articular as atividades variadas, que envolvem a prática musical, é através do aumento da nossa capacidade de memorização. No estudo de uma nova peça musical, torna-se muitas vezes necessário memorizar passagens mais difíceis ou mesmo a peça integralmente, de modo a conseguir executá-la na perfeição. Assim, é frequente que os estudos sobre o impacto da atividade musical no cérebro concluam que a prática musical pode aumentar a nossa memória.

4. Aumenta as nossas competências sociais e de trabalho em equipa. Normalmente, as escolas de música incentivam desde muito cedo a prática musical em conjunto, visto ser uma das estratégias que mais motiva os alunos a continuar a estudar um instrumento. Muitas vezes os amigos que se fazem na prática de conjunto – em duos, trios, bandas ou orquestras –, acabam tornando-se amigos próximos e alguns atingem uma relação quase ao nível da própria relação familiar. Essas relações são igualmente essenciais porque na prática de conjunto é fundamental aprender a cooperar com as pessoas ao seu redor e a saber lidar com feitios e personalidades, por vezes, muito diferentes.

5. Ensina-nos a ser perseverantes. Numa época de tanto facilitismo, em que as crianças e jovens rapidamente desistem de atividades que envolvam tempo e esforço – as consolas de jogos e os computadores trazem um retorno de satisfação mais rápido –, a aprendizagem de um instrumento ensina valores importantes como paciência e perseverança. Cada peça musical nova coloca um conjunto de dificuldades ao aluno, que é obrigado a repetir vezes sem conta secções difíceis até conseguir tocar a música corretamente. Por este motivo, na aprendizagem de um instrumento, é essencial ter bem articulado o triângulo professor-aluno-encarregado de educação, de modo a que o aluno não desista às primeiras dificuldades.

6. Melhora competências de leitura e de matemática. Para os fanáticos da matemática e do português, que acham que todos seremos matemáticos e escritores, é importante relevar que a música também contribui para melhorar algumas competências de leitura e de matemática. Desde a década de 1950, estudos demonstram que os alunos que tocam instrumentos são muitas vezes melhores em matemática. O mesmo acontece com a leitura em língua materna, onde investigações têm demonstrado que a leitura musical contribui para os alunos exibirem capacidades cognitivas superiores na aptidão de leitura, em comparação com os seus pares não treinados musicalmente.

7. Promove a autoexpressão e a felicidade. O ponto mais alto da música é, a meu ver, a sua forte relação com o nosso lado espiritual e emocional. A música é uma arte e tocar uma composição envolve sempre, ou devia envolver, a expressão de uma ou mais emoções. Quando se consegue atingir este patamar da autoexpressão e da expressão das emoções da peça musical, a prática de um instrumento pode tornar-se muito divertida e ser uma fonte de grande felicidade. Por todos estes motivos, arranje tempo e inscreva-se numa atividade musical.