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segunda-feira, março 27, 2017

Livro com DVD "O Nobre Elefante"

terça-feira, março 21, 2017

Em busca da criação de um património espiritual madeirense

por Paulo Esteireiro em JM-Madeira



Foi publicada recentemente uma edição singular no panorama da música madeirense: o CD “Música Tradicional Madeirense. Antologia. 20 anos”.

Trata-se de um CD duplo que reúne uma seleção de 20 músicas de quatro grupos que se inspiraram na música tradicional – Xarabanda, Banda D’Além, Encontros da Eira e ALMMA – e do instrumentista e compositor especializado em cordofones tradicionais madeirenses, Vítor Sardinha. As músicas aqui presentes foram gravadas no Paulo Ferraz Studio, ao longo de 20 anos, e permitem compreender as diferentes sonoridades criadas na Madeira em redor da música tradicional no pós-25 de abril.

Ao nível musical e estético, as músicas presentes neste disco podem considerar-se ramificações de músicos e grupos de Portugal Continental tais como Zeca Afonso, Júlio Pereira, Brigada Victor Jara, Vitorino Salomé, Né Ladeiras, Quadrilha, entre muitos outros nomes da música urbana com inspiração regional, que marcaram a música popular portuguesa nas últimas décadas.

O ponto de partida dos grupos e os músicos madeirenses presentes nesta antologia é o mesmo. Ambos veem no cancioneiro e nos instrumentos tradicionais um testemunho e sonoridades que refletem a vida, os sentimentos, as aspirações e as emoções do povo madeirense. Assim procuram inspiração nestas fontes para a criação de uma música de cariz regional, na tentativa de criar um património espiritual do arquipélago madeirense.

Além dos cordofones tradicionais madeirenses – braguinha, rajão ou viola de arame –, os instrumentos utilizados incluem normalmente: o bandolim, o violino, a viola-francesa (guitarra clássica), a flauta transversal e a de bisel, o acordeão, o baixo elétrico e a percussão tradicional. De modo a afastar da sonoridade mais comercial, evita-se normalmente a guitarra elétrica e a bateria convencional – o que, por exemplo, nem sempre acontece nos grupos congéneres do continente. O sintetizador aparece pontualmente em algumas músicas, mas tem sido um instrumento menos relevante neste contexto.

Apesar do ponto de partida destes músicos ser semelhante, a chegada musical e estética é muito rica e variada, sendo audível, nos arranjos musicais, os diferentes caminhos percorridos nesta antologia. Uma das sonoridades típicas neste álbum são os arranjos que: partem da melodia tradicional; criam um acompanhamento com os cordofones tradicionais (seja rasgado ou arpejado); incluem introduções e interlúdios instrumentais em que tem destaque melódico a flauta transversal, o violino e o bandolim (ou em músicas mais recentes o acordeão); têm partes de baixo elétrico com intervenções melódicas de relevo; uma percussão tradicional ligeira, marcada pelo bombo e outros pequenos instrumentos acessórios; e coros a reforçar a melodia, maioritariamente a uma ou duas vozes, embora pontualmente com excertos que podem ultrapassar as três vozes polifónicas. Nesta antologia é possível encontrar este modelo em algumas músicas dos grupos Xarabanda, Encontros da Eira ou Banda D’Além, como por exemplo a “Viuvinha”, “A história da velha da cacalhada”, a “Cantiga da Erva”, “Mourisca” ou “O anel”.

Também é possível encontrar baladas lindíssimas, com acompanhamentos harmónicos de belo efeito, inspiradas em melodias tradicionais. São exemplo disso a “Cantiga de Embalar”, com arranjo de Vítor Sardinha (que constrói aqui um acompanhamento harmónico inspirado na canção norte-americana de jazz, cujo tipo de harmonia foi seguido por exemplo na bossa nova do Brasil), “Tocador da Viola”, do grupo Banda D’Além (com uma harmonia muito bem enquadrada que acompanha magistralmente a voz expressiva de Mário André) ou “Menina que estás à Janela”, do grupo Xarabanda, cujo acompanhamento expressivo e virtuoso de guitarra clássica, transforma o arranjo desta canção numa das verdadeiras pérolas deste movimento de música urbana com inspiração na música regional.

A música do grupo ALMMA e as músicas instrumentais de Vítor Sardinha fogem um pouco ao estilo que centra a música na expressividade da melodia da canção regional. Vítor Sardinha centra sua música na sonoridade dos cordofones tradicionais, aplicando os seus conhecimentos de música clássica, de jazz e de estilos populares ao serviço da criação de obras originais, onde a inspiração é variada: desde a música brasileira (em “Terras de Vera Cruz”); passando por sonoridades com notas agregadas num estilo guitarrístico mais livre em “Águas Mansas”; até “Ilhas Afortunadas”, com harmonias modais arrojadas e uma instrumentação mais rica. O grupo ALMMA aparece neste disco como um grupo algo extravagante, visto que são músicas de autor e não propriamente tradicionais, em que se procura: sonoridades experimentais e tradicionais celtas, em “Amistício”; sonoridades energéticas na viola de arame a um estilo mais brasileiro, em contraponto a secções com melodias mais ligeiras lideradas pelo bandolim, em “Aramaria”; a mais futurista “A saudade está de luto”, onde tem destaque o sintetizador, as vozes sem letra utilizadas como um instrumento musical, alternando com secções cantadas apenas acompanhadas com percussão; ou “Sete Pecados”, com um estilo vocal e um acompanhamento de guitarra clássica lembrando, um pouco, um estilo próximo ao grupo Madredeus.

Uma última palavra para o patrocinador deste disco, a Direção Regional de Cultura, que tem vindo a apostar na publicação e divulgação do repertório de cariz tradicional, compreendendo, e bem, a importância do trabalho criativo realizado pelos artistas presentes nesta antologia.

terça-feira, março 07, 2017

Arte como testemunho da criatividade ou do génio de um povo

por Paulo Esteireiro, em JM-Madeira

Nos índices internacionais de inovação, é comum avaliar-se o nível de criatividade e de capacidade de inovar de uma organização, pela quantidade de patentes produzidas e pelo seu impacto académico e comercial. Se tivermos em consideração a importância da inovação para a competitividade de uma organização ou mesmo de um país, é natural que a questão da inovação e os seus impactos comerciais tenham passado a fazer parte do nosso quotidiano. Como é possível sermos mais inovadores? Como é possível fazermos diferentes das outras organizações? São questões que se tornaram habituais na atualidade, inclusivamente nas áreas artísticas.
No entanto, no domínio das artes a questão ganha alguma complexidade, devido às especificidades do meio artístico. É certo que poderíamos reduzir a arte a questões de mercado e medir a inovação artística, de um país ou de uma organização, pela quantidade de obras originais criadas e o sucesso ou o impacto comercial que têm junto da comunidade. São indicadores sem dúvida relevantes. Apesar disso, é também essencial referir, como faz Mário Vieira de Carvalho – investigador e ex-Secretário de Estado da Cultural –, que a arte tem uma dimensão de mercadoria, mas que não se reduz apenas a essa dimensão. As artes têm principalmente um “papel fundamental na educação e na formação cívica, na expressão de valores identitários, na constituição do legado através do qual se transmite, ao longo dos séculos, o testemunho da criatividade ou do génio de um povo.” É exatamente por estes motivos que o ensino artístico e o fomento das artes integram atualmente as políticas públicas dos Estados europeus.
Na Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (DSEAM) tem-se procurado muitas vezes fazer este difícil balanço entre a liberdade criativa e os interesses imediatos do mercado, principalmente devido à necessidade de sustentabilidade dos projetos. Ou seja, ao mesmo tempo que se procura defender o património artístico regional e transmitir esse legado às novas gerações – uma das missões centrais de uma estrutura educativa como a DSEAM –, tem sido prática habitual incentivar a criação de produtos artísticos originais e inovadores, que promovam as artes e os artistas regionais, através de espetáculos, produtos audiovisuais ou edições, com propósitos simultaneamente artísticos e comerciais.
Por exemplo, no plano editorial, a DSEAM vai lançar esta quinta-feira, 9 de março, às 11h30, no Auditório da DSEAM, a sua 161.ª edição: o livro com DVD “O Nobre Elefante”. Esta edição foi produzida no âmbito do plano editorial da DSEAM e é mais uma prova da forte aposta deste serviço da Direção Regional de Educação na produção de conteúdos originais, principalmente de autores e artistas regionais. A história foi criada e dramatizada pela Equipa de Animação da DSEAM, que a produziu inicialmente num conjunto muito alargado de creches, jardins-de-infância e escolas do 1.º ciclo da Região Autónoma da Madeira. Posteriormente, a história foi ilustrada, paginada e gravada em vídeo pela Divisão de Investigação e Multimédia da DSEAM, unidade orgânica responsável pelo plano editorial da DSEAM. Este plano editorial é um forte motor de inovação e visa criar oportunidades aos autores regionais e das áreas artísticas, para publicarem obras originais e inovadoras. Por exemplo, nos últimos três anos, foram publicados 159 autores, num total de 27 publicações (uma média de 9 edições originais por ano). Esta forte componente editorial de conteúdos originais é, sem dúvida, uma das demonstrações visíveis da capacidade inovadora da DSEAM.

terça-feira, fevereiro 21, 2017

Benefícios para a RAM por promover uma revista científica em artes

em JM-Madeira

A investigação é uma das áreas mais importantes para a promoção da inovação numa sociedade. Um dos elementos essenciais da investigação é a existência de espaços de debate, crítica e divulgação dos resultados alcançados pelos investigadores, nos seus projetos científicos. Assim, é crucial existirem revistas científicas que tenham conselhos científicos de relevo e que garantam a qualidade e o rigor do conhecimento a publicar. Tendo em consideração o atual panorama nacional, a Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (DSEAM) iniciou em 2011 uma revista científica dedicada à educação e às artes, que tem como título Revista Portuguesa de Educação Artística (ISSN 1647-905X, versão impressa, ISSN 2183-7481, versão online). Esta publicação tem como principal propósito divulgar os resultados de investigações e projetos realizados nas diferentes áreas artísticas, desde que direcionados para a educação.

O investimento neste tipo de publicação tem trazido diversos benefícios para a Madeira, entre os quais salientaria os seguintes: permite não se perder o caminho da inovação e da vanguarda da educação, visto que envolve-nos no processo de criação de novo conhecimento; evita que as nossas crianças e jovens tenham uma educação cristalizada no tempo; possibilita o acesso, em primeira mão, a informação de confiança – tão importante numa atualidade repleta de informação falsa ou pouco credível – sobre os problemas da educação; disponibiliza democraticamente a todos os agentes da educação o saber mais recente e avançado; permite-nos fazer parte duma comunidade inovadora que procura discutir os melhores caminhos para a educação artística; ajuda a manter a Madeira com o melhor serviço público de educação artística português e a ser líderes nesta área da educação.

Para se ter noção do tipo de projetos de investigação, cujos resultados são divulgados nesta revista, aqui ficam alguns exemplos selecionados de problemas educativos e debates políticos da atualidade, presentes no último volume: Qual o lugar da dança no atual sistema educativo português? Quais os aspetos mais importantes a considerar no ensino de uma canção? Qual o lugar da música na socialização escolar nas atividades de enriquecimento curricular da escola a tempo inteiro? Como identificar as zonas mais afetadas do corpo humano relacionadas com a prática instrumental e como resolver as causas da dor que delas advém? Como desenvolver uma aprendizagem musical sustentada em processos de resolução de problemas e de construção de conhecimento? Como utilizar a “escuta” na construção de uma personagem em teatro?

Para garantir a qualidade dos artigos publicados, a RPEA conta atualmente no seu Conselho Científico com 31 investigadores pertencentes a um conjunto alargado de países, tais como Espanha, França, Canadá, México, Colômbia, Brasil e, naturalmente, Portugal. A internacionalização da RPEA e o aumento da periodicidade de anual para semestral foram duas apostas importantes para alcançar, num futuro próximo, a indexação desta publicação em diretórios científicos mais influentes e conseguir, para a área da educação artística, uma publicação conceituada que auxilie os investigadores deste domínio a progredirem nas suas carreiras e a divulgarem os seus resultados a um público especializado mais alargado. Relembre-se que a RPEA é Indexada e Referenciada pelas seguintes três bases de dados internacionais de publicações periódicas científicas: ERIH PLUS – European Reference Index for the Humanities and Social Sciences; Latindex – Sistema Regional de Informação para as Revistas Científicas de América Latina, Caribe, Espanha e Portugal; e DOAJ – Directory of Open Access Journals.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

7 DIVIDENDOS DAS ARTES SEGUNDO DARREN HENLEY

em JM-Madeira


A política cultural e, de um modo geral, a discussão em torno do papel das artes na sociedade tem-se deslocado, nos últimos anos, para a área da economia. Livros como “The Economics of Cultural Policy”, de David Throsby, ou “A Textbook of Cultural Economics”, de Ruth Towse – apenas para citar alguns –, têm dado prioridade a questões de política cultural que enfatizem a sua dimensão económica: o papel da cultura no desenvolvimento territorial; a educação artística na formação de artistas e na criação de um mercado de consumidores culturais; o aumento das receitas através da defesa da propriedade intelectual nas artes; a rentabilização de produtos para televisão e cinema; as artes e o turismo cultural; o novo paradigma do comércio internacional nas artes, num mercado cada vez mais digital; estatísticas culturais relevantes no domínio da economia; etc.
O livro “The Arts Dividend” (O Dividendo das Artes) de Darren Henley, diretor executivo do Arts Council de Inglaterra – um dos organismos públicos com maiores responsabilidades no financiamento de projetos culturais ingleses –, vem no seguimento deste novo clima de debate em torno da dimensão económica das questões culturais. Ao longo de 184 páginas, Darren Henley explora o que considera serem os sete principais dividendos das artes, procurando demonstrar que o investimento na cultura tem retorno, em múltiplos aspetos das nossas vidas. Aqui ficam os sete dividendos, segundo o Henley.
1. “Dividendo da Criatividade” – a criatividade está no centro das grandes obras de arte. A criatividade tem o potencial de mudar os locais e a vida das comunidades para melhor. Para termos uma comunidade criativa é, evidentemente, necessário ter pessoas inventivas, com imaginação e inovadoras. As pessoas criativas precisam de ter oportunidades para desenvolverem os seus talentos, visto que talento há em todo o mundo, mas as oportunidades não. Ou seja, a criação de oportunidades que permitam ter uma comunidade criativa é um dos principais objetivos do investimento público em artes.
2. “Dividendo da Aprendizagem” – o investimento em educação para as artes tem um retorno a longo prazo no aumento do número de pessoas com talento. Este investimento deve ser feito em atividades educativas formais, dentro da escola, e informais, fora do contexto de sala de aula. Os benefícios da educação artística vão muito além do facto de permitir ter uma comunidade artística de excelente qualidade no futuro. Está comprovado que alunos que estudam artes: têm melhor literacia; melhoram os resultados a matemática; melhoram competências cognitivas; têm maiores probabilidades de atingirem níveis académicos superiores, no caso de alunos de classes sociais mais desfavorecidas; têm maiores probabilidades de arranjarem emprego e de ficarem empregados por um período de tempo superior; são mais propensos a participarem em atividades de voluntariado e a serem cidadãos participativos.
3. “Dividendo do Bem-estar” – está comprovado cientificamente que a participação em atividades culturais e artísticas pode melhorar a saúde e o bem-estar. As atividades artísticas aumentam os níveis de felicidade e trazem benefícios ao nível da saúde, em determinados tratamentos. Assim, há quem tenha reforçado que, numa época de crise financeira, as terapias envolvendo práticas artísticas podem ser uma boa alternativa a determinadas medicações, sendo especialmente relevantes estes benefícios nos cidadãos séniores.
4. “Dividendo da Inovação” – numa época em que vivemos uma revolução tecnológica, as organizações artísticas que têm acompanhado as novas tecnologias têm contribuído para um mercado cultural mais digital, desde a criação à distribuição. No entanto, para recolher este dividendo tecnológico, tem de haver um investimento na formação dos agentes culturais para poderem aproveitar e criar oportunidades de participação no novo mercado digital.
5. “Dividendo da Transformação Territorial” – os artistas, as organizações artísticas, os museus e as bibliotecas têm o poder de transformar as comunidades onde se integram, principalmente aquelas que têm tido historicamente poucas atividades e infraestruturas artísticas. Assim, muitos dos programas que procuram revitalizar zonas degradadas ou com pouca dinâmica cultural e social tiveram a cultura no centro dos seus planos de ação. A criação de centros artísticos de excelência permite melhorar a ecologia cultural de uma localidade ou bairro e desenvolver um conjunto de atividades comerciais em redor.
6. “Dividendo do Empreendedorismo” – o investimento em artes traz benefícios económicos, incluindo a criação de emprego e o surgimento de um conjunto de atividades comerciais relacionadas. Atualmente, as organizações artísticas têm conseguido juntar aos financiamentos públicos um conjunto de novos modelos de financiamento, não estando exclusivamente dependentes de subsídios públicos. A gestão de parques de estacionamento, restaurantes, livrarias, bilheteira, donativos, plataformas de crowdfunding são alguns dos exemplos da existência de um financiamento misto e empreendedor nesta área.
7. “Dividendo da Reputação” – a existência de artistas e organizações artísticas de excelência são um fator essencial e demonstrativo do sucesso de uma cidade ou região. A reputação positiva de uma cidade é algo difícil de conquistar e demora muitos anos a alcançar-se. As artes têm um papel crucial na conquista de uma reputação positiva, sendo comum as cidades serem reconhecidas pelo seu trabalho criativo e artístico.

terça-feira, janeiro 17, 2017

Dar oportunidade aos jovens

por Paulo Esteireiro em JM-Madeira


As crianças e jovens estão normalmente ávidos por participar ativamente na vida cultural das suas comunidades. Deste modo, cabe aos agentes culturais e artísticos a criação de condições para os poderem integrar nas suas atividades, existindo na Madeira diversas associações culturais que cumprem com excelente qualidade esse desígnio.
No domínio da educação artística, há um projeto regional que merece destaque por constituir um importante contributo para a integração de crianças e jovens na vida cultura madeirense: o projeto da Temporada Artística, organizado pela Secretaria Regional de Educação, através da Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (DSEAM), cuja temporada de 2017 será apresentada na próxima quarta-feira, 18 de janeiro, às 11h00, no Museu da Eletricidade – Casa da Luz.
O projeto da Temporada Artística (TA) é um excelente exemplo de um processo de criação de uma rede de parcerias, em prol da educação artística das nossas crianças e jovens, que são os protagonistas dos cerca de 200 concertos organizados anualmente. Ao longo de mais de uma década, a rede de parceiros da TA alargou-se e envolve atualmente intervenientes de áreas distintas, tais como: autarquias; órgãos de comunicação social; agentes turísticos; escolas; instituições públicas; e equipamentos culturais.
É importante realçar que o estabelecimento de uma rede de parcerias deste tipo é um processo moroso e difícil de prolongar no tempo. Por um lado, só é possível com a existência de confiança entre as partes, o que demora naturalmente o seu tempo. Por outro lado, a sobrevivência de um projeto com muitos parceiros, apenas é possível se for sustentável financeiramente, o que, numa época economicamente difícil como a que vivemos, só acontece se a rede for de baixo custo e benéfica para todas as partes. Assim, o facto de a TA já contar com mais de 10 anos de atividade, é demonstrativo da confiança conquistada e do sucesso conseguido no plano da sustentabilidade do projeto.
O modelo de TA promovido pela DSEAM é igualmente inovador ao nível dos objetivos que promove e da sua organização interna, constituindo, sem dúvida, uma boa prática que poderia ser replicada noutras regiões do país. Para conseguir concretizar este projeto, a DSEAM incentivou a criação de grupos artísticos com alunos, bem como a figura do diretor artístico de cada grupo (um professor que é responsável por todos os aspetos artísticos) e criou um departamento de produção, com a missão de tratar de toda a parte logística dos espetáculos. É este departamento que procura descentralizar os concertos pelos vários municípios da região, escolhendo os melhores locais para os espetáculos, e que trata da gestão dos transportes, alimentação e da promoção dos eventos, em direta cooperação com as autarquias. Há ainda uma vertente administrativa e de procura de melhoria contínua importante no projeto, visto que todos os concertos são avaliados pelos respetivos diretores artísticos e, alguns, pelo próprio público, o que permite uma constante reflexão sobre os aspetos que resultam ou que são menos conseguidos em cada espetáculo.
A cultura de avaliação constante que existe neste projeto tem permitido ainda um conjunto de melhorias, que são lições valiosas para quem pretender organizar projetos semelhantes, nomeadamente: ao nível do repertório utilizado (ao longo dos anos foi ficando claro que, consoante as zonas, há estilos musicais que resultam melhores do que outros); o tipo de espetáculo produzido (os espetáculos pluridisciplinares como óperas, bailados e musicais, que tenham um maior número de elementos em palco, costumam ter maior sucesso); a envolvência de alunos do município onde ocorre o evento é essencial (os espetáculos interativos envolvendo os grupos artísticos da DSEAM, em parceria com as escolas da zona, onde decorre o concerto, estão sempre lotados); quanto maior o envolvimento do município, maior serão as possibilidades de sucesso dos espetáculos junto da comunidade envolvente; ou que o papel da comunicação social é crucial para o sucesso dos eventos. Isto apenas para citar algumas das muitas lições aprendidas nestes 11 anos de Temporada Artística.
Apesar de todas estas aprendizagens, há um fator que se mantém desde o início e que é a pedra basilar deste projeto. As crianças e jovens que têm a oportunidade de participar de forma ativa na vida artística da sua comunidade, ganham um entendimento mais profundo do que é a arte. Acredito que é nossa obrigação criar-lhes as condições para terem estas experiências artísticas que serão importantes para o resto da sua vida.

terça-feira, janeiro 03, 2017

5 Indicadores para a Secretaria de Estado de Educação

por Paulo Esteireiro em JM-Madeira

Num recente artigo de opinião sobre os rankings das escolas (“O que os rankings não mostram”), João Costa, o atual Secretário de Estado da Educação, defendia que “conhecer a qualidade de uma escola implica um olhar muito mais abrangente, pelo que são precisos mais indicadores e é necessário um olhar sistémico.” No seguimento desta ideia, afirmava que o Ministério da Educação tem procurado disponibilizar mais indicadores – “Percursos Diretos de Sucesso”; “Indicador de Desigualdades”; e “Indicadores por Disciplina” –, mas que ainda existe muito trabalho das escolas que “não tem sido valorizado e que os rankings não mostram”, apesar de ser trabalho “essencial para o cumprimento da missão da educação”. Entre as áreas fundamentais na estruturação dos indivíduos, mas para as quais ainda não existem indicadores, o atual Secretário de Estado da Educação apontou quatro: Inclusão; Mobilidade social; Educação humanista; e Formação artística e desporto. Tendo em consideração a minha formação académica na área das artes, é natural que os cinco indicadores prometidos no título sejam direcionados para a formação artística. De qualquer modo, antes de ir aos indicadores para a formação artística, parece-me crucial ir um pouco à origem do problema: a obsessão patológica pelos resultados escolares nas áreas da matemática, língua materna e ciências.

Sendo naturalmente um defensor da racionalidade, da ciência e da liberdade de opinião, é também evidente que sou um igual defensor da matemática, do estudo da língua materna e da área das ciências. No entanto, um olhar mais aprofundado sobre a educação nos últimos 16 anos, torna evidente que o programa internacional de avaliação dos estudantes promovido pela OCDE (PISA – Programme for International Student Assessment) – centrado nos resultados a Leitura, Matemática e Ciências –, teve algumas consequências não intencionais negativas, como salientou Rui Vieira Nery, na abertura do V Congresso de Educação Artística (2014), realizado no Funchal. Promovido pela primeira vez em 2000 e depois retomado a cada três anos (2003/06/09/12/15), os resultados do PISA trouxeram o pânico a muitos gestores educativos e decisores políticos sobre educação, nos países cujos resultados eram mais baixos. Apesar de a OCDE defender que o PISA visa exclusivamente melhorar as políticas e resultados educacionais, o pânico gerado nos decisores políticos conduziu a um conjunto de equívocos graves, entre os quais saliento um que tem tido muito impacto na vida escolar: a ideia de que a resposta ao fracasso dos testes será transformar o ensino, de maneira a… ensinar para os testes. Ou seja, a resposta aos resultados dececionantes do PISA é… ensinar para o PISA. Há uns tempos, foi-me inclusivamente contada a história de um professor que perante a eliminação das provas de matemática e português, no final do 4.º ano, terá perguntado a um alto responsável da educação: “E agora, o que fazemos?”… Esta ideia de ensinar para os testes tem conduzido à desvalorização das restantes áreas disciplinares no seio do currículo escolar, visto que as atuações dos Governos na área da educação são também colocadas à prova pela avaliação do PISA.

Dito isto, é realmente crucial, para o bem da escola e da nossa educação, criar novos indicadores para além do PISA. Para isso, os rankings devem ser construídos tendo em consideração indicadores que visem promover uma escola: mais inclusiva, que integre com sucesso as pessoas com necessidades educativas especiais; com maior mobilidade social, de modo a diminuir as desigualdades sociais; que promova uma educação humanista, de modo a formar alunos mais respeitadores e solidários; mais artística e desportiva.

No que diz respeito às artes, considero essenciais os cinco indicadores seguintes, importantes para a redução da indisciplina, do abandono escolar precoce e da promoção de um maior envolvimento de professores e alunos na vida escolar: “existência de oferta de atividades extracurriculares na área das artes” (modalidade artística ou clube artístico); número de “iniciativas culturais realizadas em contexto escolar”; número de “iniciativas culturais dinamizadas fora da escola para a comunidade”; número de “alunos que participam em grupos artísticos da comunidade”; e “integração na vida escolar através de atividades artísticas” (perceção dos alunos e professores). Além disso, uma sociedade que semeia nas suas escolas as artes está a contribuir para uma escola mais criativa, com maior espírito de cooperação entre os alunos e promotora de valores estéticos. Semear as artes nas nossas escolas é algo que teremos sempre orgulho enquanto comunidade. Num futuro com tantos desafios e incertezas, formar pessoas que aprendam a explorar o seu lado criativo e a promover a imaginação (na biografia de grandes cientistas é costume encontrar a aprendizagem e a prática de uma área artística), é um facto que não deve ser desprezado, principalmente em favor de um teste internacional.