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terça-feira, fevereiro 21, 2017

Benefícios para a RAM por promover uma revista científica em artes

em JM-Madeira

A investigação é uma das áreas mais importantes para a promoção da inovação numa sociedade. Um dos elementos essenciais da investigação é a existência de espaços de debate, crítica e divulgação dos resultados alcançados pelos investigadores, nos seus projetos científicos. Assim, é crucial existirem revistas científicas que tenham conselhos científicos de relevo e que garantam a qualidade e o rigor do conhecimento a publicar. Tendo em consideração o atual panorama nacional, a Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (DSEAM) iniciou em 2011 uma revista científica dedicada à educação e às artes, que tem como título Revista Portuguesa de Educação Artística (ISSN 1647-905X, versão impressa, ISSN 2183-7481, versão online). Esta publicação tem como principal propósito divulgar os resultados de investigações e projetos realizados nas diferentes áreas artísticas, desde que direcionados para a educação.

O investimento neste tipo de publicação tem trazido diversos benefícios para a Madeira, entre os quais salientaria os seguintes: permite não se perder o caminho da inovação e da vanguarda da educação, visto que envolve-nos no processo de criação de novo conhecimento; evita que as nossas crianças e jovens tenham uma educação cristalizada no tempo; possibilita o acesso, em primeira mão, a informação de confiança – tão importante numa atualidade repleta de informação falsa ou pouco credível – sobre os problemas da educação; disponibiliza democraticamente a todos os agentes da educação o saber mais recente e avançado; permite-nos fazer parte duma comunidade inovadora que procura discutir os melhores caminhos para a educação artística; ajuda a manter a Madeira com o melhor serviço público de educação artística português e a ser líderes nesta área da educação.

Para se ter noção do tipo de projetos de investigação, cujos resultados são divulgados nesta revista, aqui ficam alguns exemplos selecionados de problemas educativos e debates políticos da atualidade, presentes no último volume: Qual o lugar da dança no atual sistema educativo português? Quais os aspetos mais importantes a considerar no ensino de uma canção? Qual o lugar da música na socialização escolar nas atividades de enriquecimento curricular da escola a tempo inteiro? Como identificar as zonas mais afetadas do corpo humano relacionadas com a prática instrumental e como resolver as causas da dor que delas advém? Como desenvolver uma aprendizagem musical sustentada em processos de resolução de problemas e de construção de conhecimento? Como utilizar a “escuta” na construção de uma personagem em teatro?

Para garantir a qualidade dos artigos publicados, a RPEA conta atualmente no seu Conselho Científico com 31 investigadores pertencentes a um conjunto alargado de países, tais como Espanha, França, Canadá, México, Colômbia, Brasil e, naturalmente, Portugal. A internacionalização da RPEA e o aumento da periodicidade de anual para semestral foram duas apostas importantes para alcançar, num futuro próximo, a indexação desta publicação em diretórios científicos mais influentes e conseguir, para a área da educação artística, uma publicação conceituada que auxilie os investigadores deste domínio a progredirem nas suas carreiras e a divulgarem os seus resultados a um público especializado mais alargado. Relembre-se que a RPEA é Indexada e Referenciada pelas seguintes três bases de dados internacionais de publicações periódicas científicas: ERIH PLUS – European Reference Index for the Humanities and Social Sciences; Latindex – Sistema Regional de Informação para as Revistas Científicas de América Latina, Caribe, Espanha e Portugal; e DOAJ – Directory of Open Access Journals.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

7 DIVIDENDOS DAS ARTES SEGUNDO DARREN HENLEY

em JM-Madeira


A política cultural e, de um modo geral, a discussão em torno do papel das artes na sociedade tem-se deslocado, nos últimos anos, para a área da economia. Livros como “The Economics of Cultural Policy”, de David Throsby, ou “A Textbook of Cultural Economics”, de Ruth Towse – apenas para citar alguns –, têm dado prioridade a questões de política cultural que enfatizem a sua dimensão económica: o papel da cultura no desenvolvimento territorial; a educação artística na formação de artistas e na criação de um mercado de consumidores culturais; o aumento das receitas através da defesa da propriedade intelectual nas artes; a rentabilização de produtos para televisão e cinema; as artes e o turismo cultural; o novo paradigma do comércio internacional nas artes, num mercado cada vez mais digital; estatísticas culturais relevantes no domínio da economia; etc.
O livro “The Arts Dividend” (O Dividendo das Artes) de Darren Henley, diretor executivo do Arts Council de Inglaterra – um dos organismos públicos com maiores responsabilidades no financiamento de projetos culturais ingleses –, vem no seguimento deste novo clima de debate em torno da dimensão económica das questões culturais. Ao longo de 184 páginas, Darren Henley explora o que considera serem os sete principais dividendos das artes, procurando demonstrar que o investimento na cultura tem retorno, em múltiplos aspetos das nossas vidas. Aqui ficam os sete dividendos, segundo o Henley.
1. “Dividendo da Criatividade” – a criatividade está no centro das grandes obras de arte. A criatividade tem o potencial de mudar os locais e a vida das comunidades para melhor. Para termos uma comunidade criativa é, evidentemente, necessário ter pessoas inventivas, com imaginação e inovadoras. As pessoas criativas precisam de ter oportunidades para desenvolverem os seus talentos, visto que talento há em todo o mundo, mas as oportunidades não. Ou seja, a criação de oportunidades que permitam ter uma comunidade criativa é um dos principais objetivos do investimento público em artes.
2. “Dividendo da Aprendizagem” – o investimento em educação para as artes tem um retorno a longo prazo no aumento do número de pessoas com talento. Este investimento deve ser feito em atividades educativas formais, dentro da escola, e informais, fora do contexto de sala de aula. Os benefícios da educação artística vão muito além do facto de permitir ter uma comunidade artística de excelente qualidade no futuro. Está comprovado que alunos que estudam artes: têm melhor literacia; melhoram os resultados a matemática; melhoram competências cognitivas; têm maiores probabilidades de atingirem níveis académicos superiores, no caso de alunos de classes sociais mais desfavorecidas; têm maiores probabilidades de arranjarem emprego e de ficarem empregados por um período de tempo superior; são mais propensos a participarem em atividades de voluntariado e a serem cidadãos participativos.
3. “Dividendo do Bem-estar” – está comprovado cientificamente que a participação em atividades culturais e artísticas pode melhorar a saúde e o bem-estar. As atividades artísticas aumentam os níveis de felicidade e trazem benefícios ao nível da saúde, em determinados tratamentos. Assim, há quem tenha reforçado que, numa época de crise financeira, as terapias envolvendo práticas artísticas podem ser uma boa alternativa a determinadas medicações, sendo especialmente relevantes estes benefícios nos cidadãos séniores.
4. “Dividendo da Inovação” – numa época em que vivemos uma revolução tecnológica, as organizações artísticas que têm acompanhado as novas tecnologias têm contribuído para um mercado cultural mais digital, desde a criação à distribuição. No entanto, para recolher este dividendo tecnológico, tem de haver um investimento na formação dos agentes culturais para poderem aproveitar e criar oportunidades de participação no novo mercado digital.
5. “Dividendo da Transformação Territorial” – os artistas, as organizações artísticas, os museus e as bibliotecas têm o poder de transformar as comunidades onde se integram, principalmente aquelas que têm tido historicamente poucas atividades e infraestruturas artísticas. Assim, muitos dos programas que procuram revitalizar zonas degradadas ou com pouca dinâmica cultural e social tiveram a cultura no centro dos seus planos de ação. A criação de centros artísticos de excelência permite melhorar a ecologia cultural de uma localidade ou bairro e desenvolver um conjunto de atividades comerciais em redor.
6. “Dividendo do Empreendedorismo” – o investimento em artes traz benefícios económicos, incluindo a criação de emprego e o surgimento de um conjunto de atividades comerciais relacionadas. Atualmente, as organizações artísticas têm conseguido juntar aos financiamentos públicos um conjunto de novos modelos de financiamento, não estando exclusivamente dependentes de subsídios públicos. A gestão de parques de estacionamento, restaurantes, livrarias, bilheteira, donativos, plataformas de crowdfunding são alguns dos exemplos da existência de um financiamento misto e empreendedor nesta área.
7. “Dividendo da Reputação” – a existência de artistas e organizações artísticas de excelência são um fator essencial e demonstrativo do sucesso de uma cidade ou região. A reputação positiva de uma cidade é algo difícil de conquistar e demora muitos anos a alcançar-se. As artes têm um papel crucial na conquista de uma reputação positiva, sendo comum as cidades serem reconhecidas pelo seu trabalho criativo e artístico.

terça-feira, janeiro 17, 2017

Dar oportunidade aos jovens

por Paulo Esteireiro em JM-Madeira


As crianças e jovens estão normalmente ávidos por participar ativamente na vida cultural das suas comunidades. Deste modo, cabe aos agentes culturais e artísticos a criação de condições para os poderem integrar nas suas atividades, existindo na Madeira diversas associações culturais que cumprem com excelente qualidade esse desígnio.
No domínio da educação artística, há um projeto regional que merece destaque por constituir um importante contributo para a integração de crianças e jovens na vida cultura madeirense: o projeto da Temporada Artística, organizado pela Secretaria Regional de Educação, através da Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (DSEAM), cuja temporada de 2017 será apresentada na próxima quarta-feira, 18 de janeiro, às 11h00, no Museu da Eletricidade – Casa da Luz.
O projeto da Temporada Artística (TA) é um excelente exemplo de um processo de criação de uma rede de parcerias, em prol da educação artística das nossas crianças e jovens, que são os protagonistas dos cerca de 200 concertos organizados anualmente. Ao longo de mais de uma década, a rede de parceiros da TA alargou-se e envolve atualmente intervenientes de áreas distintas, tais como: autarquias; órgãos de comunicação social; agentes turísticos; escolas; instituições públicas; e equipamentos culturais.
É importante realçar que o estabelecimento de uma rede de parcerias deste tipo é um processo moroso e difícil de prolongar no tempo. Por um lado, só é possível com a existência de confiança entre as partes, o que demora naturalmente o seu tempo. Por outro lado, a sobrevivência de um projeto com muitos parceiros, apenas é possível se for sustentável financeiramente, o que, numa época economicamente difícil como a que vivemos, só acontece se a rede for de baixo custo e benéfica para todas as partes. Assim, o facto de a TA já contar com mais de 10 anos de atividade, é demonstrativo da confiança conquistada e do sucesso conseguido no plano da sustentabilidade do projeto.
O modelo de TA promovido pela DSEAM é igualmente inovador ao nível dos objetivos que promove e da sua organização interna, constituindo, sem dúvida, uma boa prática que poderia ser replicada noutras regiões do país. Para conseguir concretizar este projeto, a DSEAM incentivou a criação de grupos artísticos com alunos, bem como a figura do diretor artístico de cada grupo (um professor que é responsável por todos os aspetos artísticos) e criou um departamento de produção, com a missão de tratar de toda a parte logística dos espetáculos. É este departamento que procura descentralizar os concertos pelos vários municípios da região, escolhendo os melhores locais para os espetáculos, e que trata da gestão dos transportes, alimentação e da promoção dos eventos, em direta cooperação com as autarquias. Há ainda uma vertente administrativa e de procura de melhoria contínua importante no projeto, visto que todos os concertos são avaliados pelos respetivos diretores artísticos e, alguns, pelo próprio público, o que permite uma constante reflexão sobre os aspetos que resultam ou que são menos conseguidos em cada espetáculo.
A cultura de avaliação constante que existe neste projeto tem permitido ainda um conjunto de melhorias, que são lições valiosas para quem pretender organizar projetos semelhantes, nomeadamente: ao nível do repertório utilizado (ao longo dos anos foi ficando claro que, consoante as zonas, há estilos musicais que resultam melhores do que outros); o tipo de espetáculo produzido (os espetáculos pluridisciplinares como óperas, bailados e musicais, que tenham um maior número de elementos em palco, costumam ter maior sucesso); a envolvência de alunos do município onde ocorre o evento é essencial (os espetáculos interativos envolvendo os grupos artísticos da DSEAM, em parceria com as escolas da zona, onde decorre o concerto, estão sempre lotados); quanto maior o envolvimento do município, maior serão as possibilidades de sucesso dos espetáculos junto da comunidade envolvente; ou que o papel da comunicação social é crucial para o sucesso dos eventos. Isto apenas para citar algumas das muitas lições aprendidas nestes 11 anos de Temporada Artística.
Apesar de todas estas aprendizagens, há um fator que se mantém desde o início e que é a pedra basilar deste projeto. As crianças e jovens que têm a oportunidade de participar de forma ativa na vida artística da sua comunidade, ganham um entendimento mais profundo do que é a arte. Acredito que é nossa obrigação criar-lhes as condições para terem estas experiências artísticas que serão importantes para o resto da sua vida.

terça-feira, janeiro 03, 2017

5 Indicadores para a Secretaria de Estado de Educação

por Paulo Esteireiro em JM-Madeira

Num recente artigo de opinião sobre os rankings das escolas (“O que os rankings não mostram”), João Costa, o atual Secretário de Estado da Educação, defendia que “conhecer a qualidade de uma escola implica um olhar muito mais abrangente, pelo que são precisos mais indicadores e é necessário um olhar sistémico.” No seguimento desta ideia, afirmava que o Ministério da Educação tem procurado disponibilizar mais indicadores – “Percursos Diretos de Sucesso”; “Indicador de Desigualdades”; e “Indicadores por Disciplina” –, mas que ainda existe muito trabalho das escolas que “não tem sido valorizado e que os rankings não mostram”, apesar de ser trabalho “essencial para o cumprimento da missão da educação”. Entre as áreas fundamentais na estruturação dos indivíduos, mas para as quais ainda não existem indicadores, o atual Secretário de Estado da Educação apontou quatro: Inclusão; Mobilidade social; Educação humanista; e Formação artística e desporto. Tendo em consideração a minha formação académica na área das artes, é natural que os cinco indicadores prometidos no título sejam direcionados para a formação artística. De qualquer modo, antes de ir aos indicadores para a formação artística, parece-me crucial ir um pouco à origem do problema: a obsessão patológica pelos resultados escolares nas áreas da matemática, língua materna e ciências.

Sendo naturalmente um defensor da racionalidade, da ciência e da liberdade de opinião, é também evidente que sou um igual defensor da matemática, do estudo da língua materna e da área das ciências. No entanto, um olhar mais aprofundado sobre a educação nos últimos 16 anos, torna evidente que o programa internacional de avaliação dos estudantes promovido pela OCDE (PISA – Programme for International Student Assessment) – centrado nos resultados a Leitura, Matemática e Ciências –, teve algumas consequências não intencionais negativas, como salientou Rui Vieira Nery, na abertura do V Congresso de Educação Artística (2014), realizado no Funchal. Promovido pela primeira vez em 2000 e depois retomado a cada três anos (2003/06/09/12/15), os resultados do PISA trouxeram o pânico a muitos gestores educativos e decisores políticos sobre educação, nos países cujos resultados eram mais baixos. Apesar de a OCDE defender que o PISA visa exclusivamente melhorar as políticas e resultados educacionais, o pânico gerado nos decisores políticos conduziu a um conjunto de equívocos graves, entre os quais saliento um que tem tido muito impacto na vida escolar: a ideia de que a resposta ao fracasso dos testes será transformar o ensino, de maneira a… ensinar para os testes. Ou seja, a resposta aos resultados dececionantes do PISA é… ensinar para o PISA. Há uns tempos, foi-me inclusivamente contada a história de um professor que perante a eliminação das provas de matemática e português, no final do 4.º ano, terá perguntado a um alto responsável da educação: “E agora, o que fazemos?”… Esta ideia de ensinar para os testes tem conduzido à desvalorização das restantes áreas disciplinares no seio do currículo escolar, visto que as atuações dos Governos na área da educação são também colocadas à prova pela avaliação do PISA.

Dito isto, é realmente crucial, para o bem da escola e da nossa educação, criar novos indicadores para além do PISA. Para isso, os rankings devem ser construídos tendo em consideração indicadores que visem promover uma escola: mais inclusiva, que integre com sucesso as pessoas com necessidades educativas especiais; com maior mobilidade social, de modo a diminuir as desigualdades sociais; que promova uma educação humanista, de modo a formar alunos mais respeitadores e solidários; mais artística e desportiva.

No que diz respeito às artes, considero essenciais os cinco indicadores seguintes, importantes para a redução da indisciplina, do abandono escolar precoce e da promoção de um maior envolvimento de professores e alunos na vida escolar: “existência de oferta de atividades extracurriculares na área das artes” (modalidade artística ou clube artístico); número de “iniciativas culturais realizadas em contexto escolar”; número de “iniciativas culturais dinamizadas fora da escola para a comunidade”; número de “alunos que participam em grupos artísticos da comunidade”; e “integração na vida escolar através de atividades artísticas” (perceção dos alunos e professores). Além disso, uma sociedade que semeia nas suas escolas as artes está a contribuir para uma escola mais criativa, com maior espírito de cooperação entre os alunos e promotora de valores estéticos. Semear as artes nas nossas escolas é algo que teremos sempre orgulho enquanto comunidade. Num futuro com tantos desafios e incertezas, formar pessoas que aprendam a explorar o seu lado criativo e a promover a imaginação (na biografia de grandes cientistas é costume encontrar a aprendizagem e a prática de uma área artística), é um facto que não deve ser desprezado, principalmente em favor de um teste internacional.

terça-feira, dezembro 20, 2016

Como desenvolver uma dimensão mais cultural em 2017

por Paulo Esteireiro em JM-Madeira

Numa entrevista do jornal Expresso, feita por Luciana Leiderfarb, o médico neurocirurgião e intelectual português de referência, João Lobo Antunes (1944-2016), disse a dado momento que “a vida projeta-se no futuro e se o futuro parece opaco ou enevoado deixamos de fazer projetos.” O contexto pessoal em que Lobo Antunes profere esta afirmação é trágico – o médico estava na altura da entrevista consciente do limitado tempo de vida que teria, tendo acabado por falecer em outubro passado –, mas levou-me a refletir sobre a importância de projetar a vida no futuro, para mantermos a nossa obrigação de continuarmos a realizar novos projetos “em busca de um mundo melhor”, como diria o filósofo austríaco Karl Popper.

A verdade é que, por diversos percalços dos nossos percursos de vida, por vezes, o futuro pode parecer-nos realmente “opaco ou enevoado”. Nos casos em que estamos bem de saúde, os motivos para esta bruma do tempo passarão porventura pela falta de reflexão, de criatividade ou de incapacidade de imaginarmos futuros possíveis. Nesses casos, não estaremos perante uma incapacidade de ver o futuro devido à “morte física” demasiado próxima, mas devido a uma “morte espiritual” que nos tira a capacidade de sonhar e de construir. Como diria tão bem Fernando Pessoa, no poema “D. Sebastião”, “Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?”, num apelo claro ao sonho como força motora da ação.

Pessoalmente, creio que não há época melhor para sonhar e para projetar no futuro, do que o final de cada ano. É porventura o momento ideal para nos reinventarmos e voltarmos a redefinir o nosso trilho pessoal, na nossa tentativa de fuga à cristalização precoce e na defesa do espírito livre que ainda sobrevive em nós. E é o momento ideal, porque, tal como Jano – deus da mitologia romana, que tinha duas faces, uma olhando para trás, o passado, e outra olhando para a frente, o futuro –, esta época permite-nos pensar no que correu melhor e pior ao longo do ciclo que se fecha e, simultaneamente, parece impelir-nos a querer fazer diferente no novo ano: parar de fumar; fazer a tal viagem; retomar os estudos; iniciar os projetos da nova casa; reatar os laços com velhos amigos; melhorar a forma física e perder um pouco de peso; poupar dinheiro para um investimento; fazer voluntariado junto de quem mais precisa; etc. São inúmeros os votos e promessas realizadas no início de um novo ano, desde os mais banais aos mais nobres.

Pessoalmente, gostaria que nos propósitos para 2017, junto com os habituais planos para as áreas da saúde e do bem-estar, das finanças, das viagens, da educação e do trabalho, fossem inseridos alguns objetivos para a área das artes e da cultura: ler um ou dois livros por mês, preferencialmente de autores regionais; assistir ao longo do ano a 12 espetáculos de teatro, música ou dança; patrocinar uma vez por mês projetos culturais em plataformas de financiamento coletivo (por exemplo, a plataforma de “crowdfunding” PPL), mesmo que seja com o valor de um euro; elogiar semanalmente nas redes sociais, pelo menos um artista local ou regional; escrever regularmente textos, mesmo que breves, sobre atividades culturais a que tenha assistido; comprar discos de artistas regionais, como prendas para amigos e colegas; ir com a regularidade possível ao cinema em família; inscrever numa atividade cultural, que permita aprender um instrumento musical ou participar num grupo vocal (basta ver as ofertas da associação Xaranda, tais como a Tertúlia de Cantigas Tradicionais ou as Oficinas de Formação de Viola de Arame); participar nas atividades dos serviços educativos de museus e bibliotecas; entre muitos outros possíveis.

Este tipo de objetivos poderão ajudar a projetar a nossa dimensão cultural no novo ano e contribuir para a dinamização da comunidade em que nos integramos. É verdade que os planos nem sempre são cumpridos e muitos dos objetivos idealizados não chegam a sair do papel, devido às muitas variáveis envolvidas. No entanto, é igualmente verdade que os planos não deixam de ser bons mapas e roteiros pessoais, não devendo ser entendidos como cronogramas rígidos que somos obrigados a viver. E é melhor, a meu ver, querer mudar as coisas em vez de esperar que a mudança apareça de repente um dia. Assim, aproveite o final de 2016 para fazer o seu plano cultural para 2017 e pode ser que tenha o melhor ano de sua vida.

terça-feira, dezembro 06, 2016

3 acontecimentos culturais recentes que todos deviam conhecer


por Paulo Esteireiro | JM-Madeira

Nas últimas semanas, tive a oportunidade de assistir a três acontecimentos culturais, que me trouxeram à memória uma famosa citação do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, pertencente à sua peça “A Mãe” (1932). Vou citar uma variante da tradução mais fidedigna, que se afasta um pouco da versão original, mas que ficou amplamente conhecida por ter sido aproveitada pelo poeta e músico cubano Silvio Rodríguez, na introdução da sua canção “Sueño con serpientes”: “Há homens que lutam um dia e são bons; há outros que lutam um ano e são melhores; há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.” Os três acontecimentos culturais a que assisti recentemente foram protagonizados por pessoas e instituições que são realmente imprescindíveis à cultura madeirense, por terem lutado uma vida inteira em prol das artes performativas da Madeira.

O primeiro acontecimento foi o II Seminário de Bandas Filarmónicas da Região Autónoma da Madeira, que foi organizado pela Associação de Bandas Filarmónicas da Região Autónoma da Madeira (ABFRAM), em parceira com a Direção Regional de Cultura. As bandas filarmónicas têm tido um papel educativo de uma grande relevância na Madeira e são instituições centenárias, que têm contribuído de forma voluntariosa para a promoção e divulgação da arte musical e dos grandes compositores. Por isso, foi com muito agrado que vi a ABFRAM a entregar prémios a músicos que dedicaram décadas da sua vida à música e à sua comunidade. A direção da ABFRAM está de parabéns, nomeadamente o Fábio Teles e o Cláudio Vieira, pelo esforço que têm efetuado na tentativa de união, do reconhecimento público e da formação das diferentes bandas filarmónicas. Quem já tentou unir diferentes associações ou organizações na defesa de uma causa comum, tem consciência da dificuldade que é por vezes unir e construir projetos em conjunto.

O segundo acontecimento foi o musical “Grito de Esperança”. Este foi um evento único de grande qualidade e que só foi possível devido à autonomia e à vontade de um conjunto muito alargado de pessoas – professores, artistas, decisores políticos, diretores de escola, encarregados de educação, etc. –, em fazer melhor na área da educação artística. Para se chegar a um projeto desta envergadura, com direção artística, composição, coreografia e produção exclusivamente regionais, foi preciso um trabalho de décadas. Muitos dos professores, alunos, atores e músicos envolvidos no projeto foram já formados em plena autonomia. Olhar para a orquestra envolvida e para o palco foi olhar para a formação em artes realizada nas escolas da região e ver com satisfação os frutos em palco. Para muitos foi um musical de grande qualidade. Para outros foi um espetáculo fruto do trabalho de décadas, que culminou num grande “Grito de Esperança”. Parabéns ao diretor da Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia, Carlos Gonçalves, e a todos os envolvidos diretamente neste projeto, entre os quais se destacam: Virgílio Caldeira e Ricardo Araújo, na produção; Miguel Vieira, na encenação e na direção artística; João Caldeira, na composição e direção musical; Juliana Andrade, na coreografia; e Carolina Basílio, no libreto.

Finalmente, o terceiro acontecimento foi a antestreia de mais uma peça infantil pelo Teatro Experimental do Funchal, “Quasímodo, o Corcunda”, a que tive a possibilidade de assistir no passado dia 4 de dezembro. A peça é inspirada no clássico de Vítor Hugo, que já foi adaptado ao cinema pela Disney, e a versão do Teatro Experimental do Funchal, estreia hoje, 6 de dezembro, no Cine Teatro de Santo António, ficando em palco até ao dia 11 de fevereiro. Este é um espetáculo de cariz inclusivo contando com tradução para língua gestual e com a participação especial de intérpretes do Grupo de Mímica e Teatro Oficina Versus.

Com uma longevidade impressionante, o TEF tem contribuído ao longo de mais de 40 anos para a aprendizagem e o crescimento artístico de muitas crianças e jovens da Madeira, sendo uma instituição importantíssima no panorama da educação artística regional. Este espetáculo é mais uma produção dedicada às crianças da Madeira, estando vocacionado principalmente para as famílias e escolas. No entanto, creio que qualquer pessoa deverá aproveitar mais esta oportunidade para ver uma produção do TEF, encenada por Eduardo Luíz. Estou consciente que é uma verdade de “La Palice”, mas a energia e a emoção de ver um espetáculo com atores ao vivo é uma experiência completamente diferente de assistir a um programa com atores numa televisão. São ambas boas experiências, mas uma não substitui a outra. Ainda mais com os preços levados a cabo pelo TEF. Não há mesmo desculpa para ficar em casa. Pessoalmente, acho que é uma experiência em família, que todas as crianças deveriam ter regularmente. Os atores do TEF e a direção merecem todo o nosso apoio e fica aqui a minha sugestão de Natal: compre bilhetes para os seus familiares irem ver uma peça do TEF ou de outros artistas da Madeira, nos muitos espetáculos que decorrem nesta quadra festiva. Promover a cultura da Madeira está ao alcance de todos.

terça-feira, novembro 15, 2016

Os 5 melhores motivos para assistir ao musical "Grito de Esperança"

por Paulo Esteireiro em JM-Madeira

Nos próximos dias 25, 26 e 27 de novembro, será possível assistir à estreia mundial do Musical “Grito de Esperança”, um dos momentos altos das comemorações dos 40 anos de autonomia, organizadas pela Assembleia Legislativa da RAM e pelo Governo Regional da Madeira. Os espetáculos decorrem no Auditório do Centro de Congresso da Madeira (Casino) e envolvem mais de 140 artistas, a maior parte deles crianças e jovens da região. O espetáculo é coordenado pela Secretaria Regional de Educação, através dos Serviços de Educação Artística e Multimédia, que já produziram diversas óperas, bailados e musicais originais num passado recente. Se é verdade que a oportunidade de assistir a uma estreia mundial é já um motivo importante para presenciar este musical, também é verdade que existem outros motivos igualmente relevantes, que tornam imperdível este espetáculo. Aqui ficam aqueles que considero serem os cinco melhores motivos para não perder este evento:

​1.‘‘É uma história de homenagem aos madeirenses”. Apesar de não ser uma história linear e convencional, este musical procura homenagear a luta dos madeirenses por uma vida melhor. Como refere a autora do libreto do musical, Carolina Basílio, a «esperança por uma vida melhor, e a luta efetiva pela mudança, foram as forças motrizes da peça, que acabou por culminar numa homenagem aos madeirenses que nunca desistiram de lutar pelo melhor para si mesmos e para as gerações seguintes, e que ainda hoje, o fazem.»

​​2.“É cada vez mais rara a oportunidade de ver teatro com uma orquestra e um coro ao vivo de grandes dimensões”. Atualmente, por razões puramente económicas, as peças de teatro com música têm grupos de instrumentistas e cantores cada vez mais pequenos. Por vezes, em alguns casos, até se usam gravações em vez de músicos ao vivo. Assim, assistir a um musical com uma orquestra de 32 músicos e um coro de 50 vozes (infantis, juvenis e homens) é uma oportunidade rara na região. É de realçar a presença dos cordofones tradicionais madeirenses na composição desta orquestra.

​​3.“É uma oportunidade de apoiar os artistas regionais”. Cada vez mais, o apoio da comunidade envolvente é essencial para uma sociedade ter artistas de qualidade. Se não houver este apoio, corremos o risco de no futuro sermos uma região com pouca ou nenhuma produção artística regional. Pessoalmente, acredito que este é um ponto em que estamos todos de acordo e que se trata de um cenário a evitar. Relembro que em palco estarão 142 artistas – maioritariamente crianças e jovens –, entre músicos, cantores, bailarinos e atores. A melhor forma de agradecer e reconhecer a criatividade, a inovação e a performance de tantos artistas madeirenses, seria ver os três espetáculos esgotados.

​​4.“É uma oportunidade de assistir a uma obra importante de um dos mais jovens e talentosos compositores madeirenses para teatro: João Caldeira”. É sabido que a união entre música e teatro tem imenso potencial. Ao longo da história, os principais compositores têm sabido explorar esta relação e criado números artísticos diferenciados, com o propósito de interpretar corretamente as personagens e os diferentes momentos da ação, utilizando linguagens musicais próximas do discurso (recitativos), canções (árias), partes orquestrais e danças. No caso do compositor João Caldeira, é-lhe reconhecida a capacidade para saber articular as componentes da dramaturgia de uma peça, tal como demonstra o seu seguinte testemunho acerca da música de “Grito de Esperança”: «o conteúdo musical procura refletir todas as “nuances”, emoções; procura descrever cada personagem por aquilo que cada uma representa; e reforça o peso emocional de cada cena para que o público consiga captar, de uma forma mais enriquecida, todas as cenas desta obra.»

​​5.“Finalmente, é uma oportunidade de ter uma experiência emocional e intelectual diferente do habitual”. O conceito da música como uma experiência intelectual emergiu principalmente na segunda metade do século XVIII. Este musical procura seguir essa linha e constituir uma experiência emocional, mas também intelectual para os espectadores. Como refere o diretor artístico e encenador Miguel Vieira, este musical «serve-se de uma linguagem estética e dramática contemporânea, procurando ir ao encontro de uma linguagem atual e própria dos nossos dias e meios de comunicação. […] Pretende-se inovar, numa linguagem atual e própria dos nossos dias, onde as tecnologias e meios cibernéticos, se misturam com as realidades atuais, passadas e futuras. Para esta vertente intelectual e emocional do espetáculo, também é muito importante o trabalho de criação coreográfica desenvolvido pela bailarina Juliana Andrade, que dividiu a dança, no musical, em dois trabalhos distintos: o corpo de baile e dois bailarinos, que irão ter um papel central na ação, ao nível do teatro e da música.

Por tudo isto, creio que existem bons motivos para não perder este espetáculo único na região. Creio, igualmente, que é de salientar o trabalho desenvolvido na última década pela Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia, na produção de espetáculos que unem teatro e música e que são arrojados esteticamente. Nos últimos anos, a DSEAM produziu três adaptações de óperas clássicas e românticas; um bailado original; duas óperas originais: e dois musicais originais. Há um percurso estético realizado com o público e o musical “Grito de Esperança” é mais um momento desse caminhar artístico.http://www.jm-madeira.pt/artigos/os-5-melhores-motivos-para-assistir-ao-musical-%E2%80%9Cgrito-de-esperan%C3%A7a%E2%80%9D