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terça-feira, setembro 20, 2016

Porque compus 10 danças para braguinha

por Paulo Esteireiro em JM-Madeira

Em investigações que realizei na Madeira, ao longo da última década, encontrei um extenso repertório de danças e foi-me possível observar que estas ocuparam um lugar de destaque no repertório musical madeirense dos séculos XIX e XX. As partituras encontradas denotam a influência de danças europeias mas, no princípio do século XX, começam igualmente a surgir na região danças de origem americana. Parte relevante dos tipos de danças observados é comum a outras regiões e países do espaço atlântico – tais como os Açores, Cabo Verde ou o Brasil – e também a outros países europeus.

Tendo ficado sensibilizado para a grande importância das danças na Madeira, comecei, em conversas com o amigo de sempre Rui Camacho, a sonhar com um projeto em que pudesse organizar um concerto-baile: um evento em que eu tocasse composições em contexto de sala de concerto, acompanhadas, simultaneamente, por danças. De forma algo inesperada para mim, em 2015, a Associação Retoiça, através do músico Filipe Teixeira, convidou-me para tocar na temporada 2015-16 de “Música nas Capelas”, na Ponta do Sol, tendo este convite servido de impulso para realizar um conjunto de arranjos e composições originais. Como considerei ser mais atrativo tocar em grupo do que a solo, convidei os músicos e amigos Rui Camacho (percussão e flauta) e João Viveiros (viola), que aceitaram formar comigo o trio Velha Guarda e com os quais viria a atuar na referida temporada de concertos. Assim, foi a pensar neste trio que realizei oito dos dez arranjos que integram o meu novo livro 10 Danças para Braguinha – que irei apresentar brevemente –, o que demonstra a importância do convite da Associação Retoiça para o nascimento desta publicação. Assim, queria expressar aqui a minha gratidão ao Filipe Teixeira, ao Rui Camacho e ao João Viveiros, que foram os alicerces que me permitiram a composição e os arranjos das danças.

O grupo Danças em Transição (Madeira) teve também um papel essencial e estou especialmente agradecido à Isabel Macedo Pinto, pelo apoio e simpatia com que participou no concerto-baile realizado na Ponta do Sol. Quatro das danças tradicionais que arranjei musicalmente – “Troika”, da Rússia; “Ma Navu”, de Israel; “Jiga”, da Irlanda; e uma “Valsa” francesa – fazem parte do repertório habitual deste grupo. Eu apenas tive o papel de as adaptar, fazendo os arranjos para braguinha, criando uma ou outra melodia e acrescentando um ou outro acorde ao meu gosto.

Além das “danças tradicionais do mundo”, criei e fiz arranjos de quatro “danças de salão e tradicionais da Madeira” e compus duas danças que constituem “memórias (pessoais) de danças modernas”. Nas danças da Madeira, criei duas versões de danças do músico madeirense do século XIX Cândido Drumond de Vasconcelos, “brincando” um pouco com harmonias de jazz (em “Valsa Jazz”) e criando ambientes de diversão boémia (“Clara Polka”). Criei também uma composição inspirada em temas musicais da Madeira e de Cabo Verde (“Madeira Verde”) e adaptei uma das minhas preferidas danças tradicionais da Madeira (“Mourisca”). Finalmente, nas minhas memórias de danças, procurei recriar as danças modernas ao estilo “house”, que povoaram uma parte da minha vida juvenil (“Braguinha in the House”) e os “slows”, um tipo de dança muito em moda há umas décadas atrás, que considerei interessante incluir neste livro por se afastar dos restantes modelos de danças anteriormente apresentados.

Termino, agradecendo: ao músico Pedro Temtem, pelo apoio nas gravações em estúdio; ao Eduardo Gonçalves, pela gravação, mistura e masterização do CD; à Néli Silva, pela revisão das partituras; à Ana Rodrigues, pela capa; à Cátia Cardoso, pela paginação; ao Tiago Machado, pela coordenação gráfica do livro; ao Manuel Morais, pela disponibilidade para escrever o prefácio; à Associação Regional de Educação Artística pela edição; ao Diretor de Serviços de Educação Artística e Multimédia, Carlos Gonçalves, por ter acedido a apoiar esta edição; e às pessoas que gentilmente apoiaram este livro na fase de pré-venda, permitindo assim a sua concretização (fiquei especialmente contente por ter também apoiantes de fora da região, quer oriundos do Continente, quer do Brasil e até de Inglaterra). A todos o meu Muito Obrigado.

sexta-feira, agosto 26, 2016

The Butlers of Glen Avenue, Tradicional Irlandesa - Versão de Paulo Este...





Vídeo de Marina Ornelas, Gravação Áudio, Mistura e Masterização de Eduardo Gonçalves, participação especial de Pedro Temtem nos instrumentos de percussão. 

Música que faz parte do meu livro de partituras (com CD) "10 Danças para Braguinha", que se encontra em fase de pré-venda. Apoie esta edição e a nossa associação - AREArtística -, comprando o livro no período de Pré-venda (http://www.areavirtual.pt). Todas as pessoas que adquirirem o livro neste período receberão a edição autografada pelo autor e o terão o nome incluído nos créditos do livro, na secção de agradecimentos (portes de envio por correio incluídos para Portugal).

No caso de não estar interessado nas partituras e querer apoiar apenas o CD, pode contribuir comprando apenas as músicas no site https://pauloesteireiro.bandcamp.com/... Os apoios podem ir desde 1 euro (uma música) até aos 7 euros (custo das 10 músicas do álbum). Os apoios realizados até ao final de agosto, também serão referidos no livro das partituras.

terça-feira, agosto 16, 2016

Para uma audição de.... "As cores do meu rajão"

por Paulo Esteireiro em Jm-Madeira


O facto de ser complicado, numa região com as características da nossa, escrever textos críticos tem várias consequências negativas, para a nossa progressão em diferentes campos do conhecimento. Uma das principais consequências da ausência de crítica especializada, nomeadamente no domínio das artes, é o facto de muitas vezes passarem despercebidas certas obras artísticas de relevo, para a nossa atividade cultural, nos meios da comunicação social. Uma dessas obras é, sem qualquer dúvida, o CD “As cores do meu rajão” do músico e professor Vítor Sardinha.

Vítor Sardinha é um músico raro na Madeira, por ser bastante completo. Escreve sobre o que faz, sobre a classe que integra – os músicos – e tem uma formação e uma prática musical admiráveis. Junta a formação clássica do conservatório, aos conhecimentos de harmonia de jazz, às técnicas guitarrísticas da música pop e consegue fazê-lo utilizando o rajão, um dos instrumentos que faz parte das tradições da Madeira há mais de 100 anos!

“As cores do meu rajão” contém 28 peças musicais, tocadas a solo, fazendo um percurso histórico que vai desde o final do renascimento (século XVI) até à atualidade. Para os amantes unicamente de canções e de música de dança – talvez a esmagadora maioria das pessoas que ouve música – este disco de música exclusivamente instrumental pode trazer uma maneira nova de olhar para a arte musical. As peças são todas de curta duração, com uma beleza única – captada bem por uma boa interpretação técnica e expressiva– e um conteúdo que reflete bem a identidade madeirense e portuguesa. Que conteúdo é esse? E, já agora, por que motivo “reflete bem a identidade madeirense e portuguesa”? Em suma, quais as diferentes facetas, presentes neste disco, que nos distinguem no plano mundial e que de certo modo nos caracterizam? Primeiro, o nosso lado europeu e cosmopolita está bem presente neste disco, nas músicas renascentistas, barrocas, clássicas e românticas aqui interpretadas e que refletem também a nossa educação internacional, visto fazerem parte da formação das nossas escolas especializadas de música (por exemplo, ouça-se as faixas “Bourré” de N. Valet, “Menuet em Sol” de J. S. Bach, “Danse” de M. Carcassi ou “La Donna e Mobile” de G. Verdi). Vítor Sardinha toca de forma muito clara todas estas peças de música clássica, juntando-lhe aqui e acolá um rasgado ao seu gosto, no meio das polifonias renascentistas e barrocas, tocadas sempre com um som claro, cuidado e elegante. É de realçar que uma das principais ideias do músico madeirense é aqui mostrar a aproximação entre a guitarra barroca e o rajão – no formato do instrumento, no número de ordens de cordas (cinco em ambos os instrumentos) e na afinação –, demonstrando que é possível tocar no instrumento tradicional da Madeira este repertório barroco.

Segundo, os nossos entretenimentos típicos preferidos estão bem perceptíveis nas danças tradicionais madeirenses aqui tocadas (“Mouriscadas” e “Mourisca Alla Moda”) e nos fados (“Fado Antigo” e “Lisboa Antiga). O arranjo de Vítor Sardinha da “Mourisca Alla Moda” é, por exemplo, uma verdadeira pérola. Pessoalmente, entre as danças tradicionais da Madeira, considero que esta é uma das mais divertidas e emblemáticas, sendo a versão presente neste disco uma autêntica maravilha (conheço várias adaptações desta música, entre as quais uma minha, e considero a do Vítor Sardinha um verdadeiro tesouro).

Terceiro, a vertente turística da Madeira está aqui refletida na música ao estilo swing, tocada nos hotéis madeirenses, ao longo de décadas, para os turistas anglo-saxónicos, que são uma das áreas em que Vítor Sardinha é mais original neste contexto da música para cordas dedilhadas a solo (Por exemplo, “All of Me”, “Ain’t She Sweet”, “I Love Paris”, “Bye Bye Black Bird”).

Finalmente, a nossa história de emigração, aqui representada pela ligação entre ukulele e rajão, na música “Hawai Blues”, um original de Vítor Sardinha, que é a peça que encerra o disco. Assim, além da ponte que Vítor Sardinha realiza entre a guitarra barroca e o rajão, o músico madeirense termina o disco fazendo uma segunda ponte musical, desta vez entre o rajão madeirense e o ukulele havaiano (as primeiras quatro cordas do rajão têm a mesma afinação que o famoso instrumento do Hawaii, que tem evidentes raízes no braguinha e no rajão da Madeira).

A complementar a gravação, o disco tem um breve texto de Vitor Sardinha sobre o rajão, demonstrando assim também a faceta de músico-investigador, sempre preocupado em saber mais sobre as raízes dos instrumentos que toca. O texto apresenta uma síntese das principais ideias do músico sobre este instrumento e algumas informações de cariz ensaístico, que têm o mérito de contribuir para a discussão e o aumento do debate em torno do rajão, destacando-se aqui a proposta de uma terceira ponte musical do rajão, desta vez com instrumentos de regiões espanholas que utilizam afinações semelhantes (Timple, Guitarrillo, Guitarro, Guitarrico, Requinto, etc.).

Pela negativa, não há bela sem senão, apenas considero que algumas (poucas) peças poderiam ter sido gravadas com mais calma e tempo, visto terem algumas notas mal pisadas – o que num disco desta qualidade e com as tecnologias atuais poderia ter sido evitado –, embora isso não influencie nunca a expressividade da música. Em suma, um disco altamente recomendável e que não deve passar despercebido.

terça-feira, agosto 02, 2016

Boas Práticas da Madeira na 32.ª Conferência Mundial do ISME

por Paulo Esteireiro em JM-Madeira

Por mais experiência que se tenha numa determinada área, a humildade obriga-nos a reconhecer que temos sempre muito a aprender. Se aliarmos a essa natural necessidade de aprendizagem contínua, o facto de residirmos numa ilha, então torna-se fundamental procurarmos evitar algum isolamento e estarmos constantemente a expormo-nos a uma variedade de pontos de vista. Faz-nos bem vermos o que os outros fazem de diferente e faz-nos bem ouvir as críticas dos outros, gostemos ou não, aos nossos projetos. Esta exposição é crucial para não perdermos ideias inovadoras e as tendências atuais da nossa área de atividade, que podem futuramente afetar a nossa capacidade de estarmos na vanguarda e evitar que sejamos condenados a alguma estagnação nas nossas práticas. Assim, é necessário participar em conferências mundiais dos setores em que nos inserimos e, no caso da educação musical, a conferência mundial do ISME (Sociedade Internacional para a Educação Musical) é o evento de referência.

Esta conferência decorre de dois em dois anos num continente diferente e, na edição de 2016, que decorreu em Glasgow (de 24 a 29 de julho), participaram cerca de 2500 pessoas vindos de todo o mundo. Entre esse elevado número de participantes encontram-se aproximadamente 400 conferencistas e cerca de 1000 artistas, entre crianças, jovens e profissionais, que realizaram dezenas de concertos ao longo dos seis dias deste encontro mundial.

Este ano, a Região Autónoma da Madeira voltou a estar presente, sendo a sétima vez que participamos com conferências sobre os nossos projetos na área da educação artística, em encontros europeus, ibero-americanos e mundiais. O facto de estarmos ativos como participantes a divulgar as nossas investigações e boas práticas é essencial para posicionarmo-nos como especialistas no plano nacional e internacional. Por exemplo, ao nível português, é indubitável que a RAM é um modelo de excelência e somos reconhecidos pelos principais especialistas nacionais como referências importantes da educação artística.

A conferência que apresentámos este ano resultou de uma investigação realizada pelos investigadores Carlos Gonçalves (diretor de serviços de educação artística e multimédia e membro integrado do centro de investigação INET/MD da Universidade Nova de Lisboa), Natalina Santos (chefe de divisão de apoio à educação artística e membro integrado do Centro de Investigação em Educação da Universidade da Madeira) e eu próprio (chefe de divisão de investigação e multimédia e membro integrado do centro de investigação CESEM da Universidade Nova de Lisboa). A investigação apresentada em Glasgow versou o projeto regional das “modalidades artísticas”, um projeto único de atividades extracurriculares em Portugal, o qual suscitou um grande interesse entre os participantes na conferência, que colocaram muitas questões sobre o modelo aplicado na Madeira e consideraram relevantes os impactos educativos demonstrados pela investigação apresentada. Nomeadamente, demonstraram interesse pela importância deste projeto para a integração dos alunos na vida escolar; pelo facto de dois terços dos alunos participantes no projeto ambicionarem seguir uma carreira artística; e pelo indicador que salientava que um terço dos alunos já estava integrado num grupo artístico da sua comunidade.

A plateia demonstrou também interesse pela continuidade da investigação que os investigadores da Madeira pretendem realizar, principalmente sobre a importância do projeto das “modalidades artísticas” no combate ao abandono escolar precoce.

A conferência decorreu em edifícios fantásticos, tais como o Conservatório Real da Escócia – uma escola superior de artes e cinema –, no Glasgow Royal Concert Hall, no Teatro Real de Glasgow e no National Piping Centre, locais que se encontram muito perto uns dos outros e que formam um “cluster” cultural importante para a cidade de Glasgow. No geral são edifícios de dimensões grandiosas mas com uma construção simples e pragmática, demonstrando que não é necessário muito dinheiro para se construir equipamentos de nível superior.

A Madeira, através do Governo Regional, poderia candidatar-se a receber no futuro uma destas conferências mundiais ou uma europeia. Seria inclusivamente um bom pretexto para construirmos nos próximos anos um espaço cultural no centro do Funchal que tanta falta faz para os artistas madeirenses e para o entretenimento cultural dos turistas.

terça-feira, julho 19, 2016

Homenagem a João Arnaldo Rufino da Silva (1929-2016)


Em julho do ano passado, Joseph Ratzinger, o Papa emérito, discursou pela primeira vez desde que resignou em 2013, interrompendo assim dois anos de silêncio na esfera pública. O tema do discurso foi… a arte musical. O Papa emérito abordou então conceitos de música, as fontes que dão origem a este tipo de arte e a necessidade de valorização do contributo da música sacra ocidental, bem como o seu papel na liturgia. Uma das ideias centrais defendidas por Ratzinger foi que em nenhum outro âmbito cultural há uma grandeza musical que possa ser comparada com aquela nascida no âmbito da fé. Seja-se religioso ou não, a verdade é que um elevado número das obras-primas da música ocidental nasceram no âmbito da música sacra e do Cristianismo, como são bons exemplos os casos de Palestrina, Mozart, Haendel, Bach, Beethoven e Bruckner. 
No caso da Madeira, encontramos também uma situação semelhante, e durante os quase 600 anos de história da Madeira, a música sacra ocupou quase sempre um papel central, sendo a área cultural em que podíamos encontrar os melhores músicos na Madeira. No entanto, muita da música sacra madeirense histórica perdeu-se, provavelmente para sempre, sendo poucos os exemplos musicais que chegaram até nós, anteriores ao século XIX.
Se a situação da música sacra madeirense dos séculos XIX e XX é bastante diferente, conhecendo-se atualmente centenas de obras de autores madeirenses, isso deve-se à ação de uma pessoa: João Arnaldo Rufino da Silva (1929-2016), que faleceu na madrugada desta segunda-feira.  
Rufino da Silva foi um grande defensor da música sacra madeirense e deixou um conjunto de edições essenciais para o estudo da história cultural madeirense na área musical. Ex-Sacerdote católico, natural da freguesia de Câmara de Lobos, Rufino da Silva distinguiu-se ao longo da sua vida como músico, musicólogo, professor e diretor artístico de coros, como o Coro do Seminário e o Orfeão Madeirense. 
Estudou no Colégio Português em Roma, com o propósito de frequentar o Instituto Pontifício de Música Sacra, onde concluiu o curso de Canto Gregoriano e Composição Sacra. Os estudos em Roma foram complementados com o curso do Método Ward, em Paris, também na área da música gregoriana. De volta à Madeira, concluiu então o curso superior de Canto de Concerto pela Academia de Música, Belas-Artes e Línguas da Madeira. 
Na década de 1970, deixa o sacerdócio e muda-se para Lisboa onde integrou o Coro Gulbenkian em 1978, no qual se manteve até 1994. Nessa altura, a sua principal profissão passou a ser a de professor de música, tendo lecionado Educação Musical na Escola Preparatória de São Julião da Barra, em Oeiras, de 1980 a 1994.
O seu principal legado acabou por ser as várias investigações musicológicas e edições sobre a música sacra madeirense – quer popular quer erudita –, da qual foi o principal impulsionador e divulgador nas últimas décadas.
Na obra publicada de João Arnaldo Rufino da Silva salientam-se: “Cânticos Religiosos do Natal Madeirense”, um livro editado pela Direção Regional dos Assuntos Culturais, que deu origem posteriormente à gravação de dois CDs, num trabalho que resultou de uma recolha feita pelo músico, sobre cânticos populares do Natal madeirense; “Canções Populares Madeirenses” para Coro Misto; e “Um Século de Música Sacra na Madeira” – a sua obra maior –, onde realizou a mais importante compilação existente sobre a música religiosa madeirense, que inclui 774 composições, que foram tocadas na região entre o final do século XIX e o final do século XX. 
No domínio da investigação musicológica destacam-se os seus artigos sobre a música sacra na Madeira na revista “Islenha”, na revista “Girão” e colaborou no livro “A Madeira e a Música”, com um artigo intitulado "Música Religiosa na Madeira".
Em 2010, a Secretaria Regional de Educação, por intermédio do então Gabinete Coordenador de Educação Artística (atual Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia), realizou-lhe uma homenagem pelo papel desempenhado na defesa do património musical madeirense. Passados seis anos, aqui fica novamente a nossa sentida homenagem. Estamos eternamente gratos pela confiança que depositou na nossa instituição, pelo carinho que sempre teve pelo nosso trabalho, que ficou bem refletido na doação que nos fez da sua coleção de música, com cerca de 600 documentos, para que continuássemos o seu legado.

terça-feira, julho 05, 2016

Para uma audição da... 9.ª Sinfonia

Numa época em que paira uma sombra sobre o futuro da Europa e em que o risco de desintegração do projeto de união europeia está mais alto do que nunca, nas últimas décadas, escolhi abordar um pouco da história e do conteúdo da Sinfonia n.º 9 de Beethoven ou, como é normalmente designada em português: a 9.ª Sinfonia. Esta obra tem um papel cultural muito relevante e é, desde 1972, o hino oficial do Conselho Europeu, tendo a sua entidade sucessora na atualidade, a União Europeia, mantido esse estatuto à obra de Beethoven, por considerar que esta composição representa os ideais de liberdade, paz e solidariedade – ideais que a Europa e as suas instituições ambicionaram prosseguir na sua fundação e nos seus principais tratados.

É uma das obras musicais mais conhecidas e tocadas da música clássica no mundo inteiro. Apesar disso, é natural que a maior parte das pessoas apenas conheça a parte do hino – nem que seja por terem tocado a melodia na flauta de bisel, quando tiveram educação musical no ensino básico – e desconheçam o resto da sinfonia e, inclusivamente, o próprio conteúdo da letra.

De qualquer modo, o que se pretende aqui transmitir é que a 9.ª Sinfonia é muito mais do que o Hino à Alegria. Com mais de uma hora de duração, é a maior sinfonia de Beethoven e uma das obras-primas musicais de sempre da humanidade. Quando em 2013 foi vendido um dos manuscritos originais desta sinfonia pelo astronómico valor de 3,3 milhões de dólares (!), Stephen Roe, um dos responsáveis da Sotheby’s de Londres – a empresa que mediou a venda –, explicava o elevado valor alcançado, pelo facto da sinfonia ser “um dos maiores feitos do homem” ao nível de obras como Hamlet ou o Rei Lear de Shakespeare.

Concluída em 1824, a 9.ª Sinfonia é o primeiro exemplo de uma sinfonia de um compositor de renome a incluir partes vocais, sendo por isso considerada uma sinfonia coral. O texto escolhido por Beethoven para ser cantado foi retirado do poema de Friedrich Schiller “Ode à Alegria”, escrito em 1788. O compositor utilizou o poema no quarto e último andamento da sinfonia e é exatamente este andamento, um dos motivos para esta obra ser um marco na história da humanidade. Neste andamento final, Beethoven procurou representar musicalmente uma irmandade universal entre todos os homens, sendo possível concordar com o musicólogo Charles Rosen quando este afirma que este andamento constitui uma sinfonia quase autónoma dentro da própria 9.ª sinfonia. No total, uma atuação típica deste andamento demora 24 a 25 minutos, que é praticamente o tempo de duração, por exemplo, da totalidade dos quatros andamentos da primeira sinfonia de Beethoven, apresentada publicamente em 1800.

Este andamento final da 9.ª Sinfonia está organizado por secções que são quase programáticas, no sentido de serem extremamente descritivas. O andamento começa com uma secção tempestuosa, descrita por alguns autores como uma “fanfarra dos horrores”, a qual é interrompida por uma secção em que o compositor utiliza os violoncelos e contrabaixos quase como uma fala, em estilo recitativo. Nesta secção, Beethoven cita e depois rejeita os temas musicais principais dos três primeiros andamentos da 9.ª Sinfonia, recusando cada um dos temas desses andamentos, através da ação musical dos violoncelos e contrabaixos: primeiro rejeita o tema algo enigmático do primeiro andamento (Allegro ma non troppo, un poco maestoso); depois recusa o tema de cariz irónico e sombrio do segundo andamento (Scherzo: Molto vivace); e, finalmente, rejeita o tema doce e cantável do terceiro andamento (Adagio molto e cantabile).

Após a recusa dos temas, Beethoven introduz então o tema principal do hino à alegria pelos mesmos violoncelos e contrabaixos que recusaram os temas anteriores. O tema vai sendo progressivamente aceite pela restante orquestra, servindo inclusivamente de base para uma série de variações pela totalidade da orquestra.

Quando tudo parece estar bem e o tema da alegria já foi aceite pela orquestra, estranhamente regressa a “fanfarra dos horrores” do início do andamento. Esta passagem é então interrompida e Beethoven introduz aqui pela primeira vez o canto, através de um cantor solista (baixo) que sugere a todos que cantem agora sons mais alegres. O tema principal da alegria é então recuperado por cantores solistas e pelo coro, que cantam com variações musicais o texto da “Ode à Alegria” de Schiller, onde são realçados valores como a alegria, a amizade, a natureza e a irmandade entre todos os homens.

A secção seguinte é das mais curiosas e apesar da sua simplicidade é das mais significativas: uma variação do hino à alegria em estilo marcial de uma marcha turca, os principais inimigos do império austríaco durante séculos. Beethoven pega então no tema do hino à alegria e adapta-o ao estilo musical do principal inimigo, numa demonstração da união entre todos os povos. Segue-se novamente o Coro a cantar o tema da alegria, agora com variações dos violinos e, quando tudo parece terminado, Beethoven introduz um segundo tema principal de cariz religioso: o tema do pai celestial, juntando aos valores da amizade, da alegria e da natureza, o valor da espiritualidade e da religião. O tema acaba com o coro a cantar notas sustentadas nos agudos durante longos compassos, seguindo-se um dos momentos musicais mais bonitos da história da música: uma dupla fuga em que Beethoven funde o tema da “alegria” com o tema do “pai celestial”, seguindo-se várias secções conclusivas apoteóticas.

Para terminar, sinto ser importante referir que, enquanto para muitos artistas mais recentes se tornou central a tese da arte decadente como reflexo de uma sociedade decadente, Beethoven compôs a sinfonia n.º 9 como uma obra de esperança e de união entre os vários povos, numa época realmente decadente, marcada por guerras e por uma grande incerteza na Europa (como foi o primeiro quartel do século XIX). Tal como esta sinfonia serviu de esperança para muitos, espero que a Europa continue a honrar as suas promessas de união e solidariedade entre os povos e que consiga honrar a música que lhe serve de hino e símbolo político.