Terça-feira, Novembro 03, 2009

Entrevista a João Maurílio Basílio


João Maurílio Basílio é Capitão Chefe de Banda de Música, estando actualmente colocado na Zona Militar da Madeira (ZMM), onde chefia a Banda Militar. Desempenhou também as funções de Chefe da Banda do Exército tendo sido responsável pela 1.ª edição da revista “Eurídice”, periódico pioneiro na temática das bandas militares. Tendo em consideração o trabalho pedagógico realizado no Funchal, bem como as várias parcerias realizadas com o Gabinete Coordenador de Educação Artística (GCEA), entrevistámos o Capitão João Basílio para saber a sua opinião sobre: (1) O papel cultural da Banda da ZMM na Região (2); O impacto da parceria entre a Banda Militar e o GCEA ao longo dos últimos anos. (3); Os principais desafios colocados aos intervenientes da educação artística nas próximas décadas.

Paulo Esteireiro: A Banda da ZMM tem uma longa história na Região. Actualmente, qual é o papel cultural desta Banda na Madeira?

João Maurílio Basílio: A Banda Militar da Madeira está configurada no organigrama do Exército Português para o Comando da Zona Militar da Madeira. O seu desempenho enquadra-se no determinado na legislação em vigor para uma Banda Militar desta estrutura, num contexto que visa duas vertentes culturais diversificadas.

Na primeira das suas grandes áreas de actuação, a Banda Militar contribui com o apoio musical em todas as cerimónias militares em que esteja indigitada superiormente. Por outras palavras, a Banda Militar deverá estar presente nas cerimónias militares da mais variada índole, executando Hinos Nacionais ou similares, e/ou marchas militares, conforme as exigências protocolares o determinarem. A título de exemplo, aquando da vinda do Rei de Espanha à Região Autónoma da Madeira em Julho último, a Banda Militar executou o Hino Nacional de Espanha, seguindo-se o de Portugal em continência a esta Alta Entidade. Seguiram-se marchas militares para a revista e desfile.

Numa outra área de acção, a Banda Militar deve realizar concertos protagonizados quer pela instituição civil, quer pela militar, enquadrados num regime sócio-cultural que dignifique a instituição Exército e os princípios e valores que a sustentam.

Desde a implantação da Banda Militar da Madeira na RAM, que se reporta ao início do séc. XIX, que a sua actuação assenta nestas duas linhas mestras, nas quais se fundamenta para executar inúmeras cerimónias, concertos e actuações. Através desta acção tem desenvolvido um papel militar e cultural junto da sociedade civil, tendo contribuído fortemente para a génese e desenvolvimento de várias associações culturais desta Região. O papel cultural desta Banda Militar e dos seus efectivos encontra-se em metamorfose constante a avaliar pelos contributos recorrentes que os militares músicos prestam no âmbito da docência, direcção musical e execução instrumental em instituições culturais da Região como o Conservatório – Escola das artes, GCEA, filarmónicas e outras associações artísticas.

PE: A Banda da ZMM tem realizado vários projectos em parceria com o GCEA (Concerto dia da RAM, Comemorações do Dia da Música, Concertos de Natal, entre outros). Qual o impacto destas parcerias no panorama cultural madeirense?

JMB: As parcerias artísticas da Banda Militar da Madeira com o GCEA têm primado por uma grande assertividade, fundamentada num padrão de rigor artístico e disciplina cujo intuito visou o cumprimento com sucesso dos programas propostos.

Vários foram os concertos em que as duas instituições estiveram interligadas, quer através do Governo Regional da Madeira, protagonizado pelo GCEA, quer pelo Exercito Português, através do Comando da Zona Militar da Madeira. Fazendo uma oportuna analepse, para melhor situar os leitores nos projectos realizados, relevo alguns dos melhores momentos musicais de eleição:

Concerto de Natal em 2005, no Teatro Municipal Baltazar Dias, com o Coro Infantil, Juvenil e Regina Pacis do GCEA; Concertos de Aniversário do Comando da Zona Militar da Madeira com o Coro Juvenil e o Ensemble Regina Pacis, em 2007 e 2009, Concerto relativo ao Dia do Exército em 2009, com a Orquestra de Bandolins e o cantor João Nuno e Concertos relativos ao Dia da RAM e Dia Mundial da Música, com a Orquestra de Sopros do GCEA, num perfil estratégico que remonta ao ano de 2003. Aproveito a oportunidade para agradecer a todos os intervenientes dos agrupamentos referidos a disponibilidade e colaboração demonstradas.

A comunidade madeirense reagiu positivamente a estas parcerias, como se observou através da assiduidade verificada nos concertos realizados. A juntar a este facto, realça-se a reacção espontânea e positiva, de receptividade aos programas musicais e aos vários artistas apresentados. Relembro, por exemplo, que através da simbiose entre Banda Militar da Madeira e Orquestra de Sopros do GCEA, foi possível apresentar concertos com o tenor Carlos Guilherme, com o Pianista Robert Andres, obras em primeira audição de Jorge Salgueiro, etc.

Estes factores indiciam um novo clima cultural, no qual o público se revê na aceitação espontânea e sem preconceitos ideológicos, embora mantendo as devidas reservas de ordem artística. Olhar para uma Banda Militar vestida de verde, ou outro uniforme superiormente estabelecido, conjugada com as multicolores dos vários agrupamentos referenciados, reflecte a abertura de várias janelas no referente à comunicabilidade artística entre Instituições tão distantes na sua génese, mas tão próximas na sua mensagem.

PE: Vivemos numa época de fortes mudanças sociais, que inevitavelmente influenciam a área da educação e das artes. No estado actual do ensino, que desafios se colocam aos intervenientes da educação artística nas próximas décadas?

JMB: Aos intervenientes da educação artística mantém-se o dilema que vem do antecedente, ou seja, a evolução lenta dos padrões de qualidade, visando o espectro da valorização da cultura na sua essência.

Porquê? A formação artística não está dissociada da educação. Diria que a cultura de um povo começa em casa, com a família a educar e valorizar as pequenas coisas que constituem o puzzle da vida.

É deveras surpreendente a receptividade a um determinado programa didáctico-pedagógico da Banda Militar nas Escolas da RAM. Obtemos reacções das mais díspares, que vão desde a concentração e participação espontânea dos alunos, em determinadas escolas, contrastando com outras, cujos discentes reagem com indiferença, desmotivação e falta de entusiasmo. Essas reacções não acontecem por acaso. Na maioria dos casos estão de acordo com os núcleos sociais e as zonas demográficas a que pertencem.

Torna-se difícil responder concretamente à questão colocada. A Banda Militar, quer através da sua formação tipo, quer através dos seus agrupamentos de música de câmera, num projecto liderado pelo GCEA há aproximadamente vinte anos e cuja aprovação dos sucessivos Comandantes da Zona Militar da Madeira tem sido uma constante, tem contribuído para a cultura musical dos jovens alunos madeirenses.

O GCEA é pioneiro na formação artística ao nível do Ensino Básico. O seu exemplo na matéria tem recolhido aprovações e elogios de vários quadrantes sócio-culturais do país. Termino desejando-lhe as maiores venturas e prosperidades.

A Banda Militar regozija-se e sente-se privilegiada por participar neste projecto de formação artística e manifesta a sua disponibilidade para dar continuidade.

Primeiro Manual em 100 Anos


A Secretaria Regional de Educação e Cultura, através do Gabinete Coordenador de Educação Artística da Direcção Regional de Educação, publicou recentemente mais uma nova edição destinada aos instrumentos tradicionais madeirenses: um manual para braguinha intitulado de 'Cordofonias - Braguinha 1'.

Segundo os conhecimentos actuais, esta edição é o primeiro recurso pedagógico construído para este instrumento em mais de 100 anos. Após o seu período áureo no século XIX, em que centenas de obras musicais eruditas foram compostas para braguinha, ao longo do século XX este instrumento foi progressivamente sendo abandonado, não se conhecendo obras originais de grande valor compostas no século passado. Assim, esta edição é um importante contributo para a valorização e o aumento da prática deste instrumento, esperando-se inverter no século XXI o período de decadência assistido no século anterior.

No plano pedagógico, este manual encontra-se organizado numa aprendizagem progressiva, ou seja, nota a nota; passo a passo, realizando sempre uma ponte com exercícios e com pequenas canções, algumas já conhecidas, numa aprendizagem onde o grau de dificuldade vai aumentado conforme vamos progredindo no manual. De forma a que o estudo seja mais emotivo, esta edição conta ainda com um CD, que contém a gravação das músicas presentes no manual, para estudo dos alunos em casa. Estilisticamente falando, o CD é bastante diversificado nos géneros escolhidos, para que os alunos também possam entrar em vários mundos sonoros. Em anexo, o manual permite ainda consultar um pequeno glossário musical, com conteúdos musicais existentes ao longo do manual bem como um mapa de acordes.

'Cordofonias - Braguinha 1' é mais uma edição do GCEA que visa contribuir para a preservação e divulgação dos instrumentos e da cultura tradicional madeirense. A autoria e coordenação do manual é da responsabilidade dos professores Roberto Moritz e Rodolfo Cró.

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Domingo, Julho 26, 2009

Entrevista a João Paulo Janeiro

João Paulo Janeiro lecciona Órgão, Música de Câmara e Baixo Contínuo na Escola de Música Nossa Senhora do Cabo (Linda-a-Velha), onde dirige também a Oficina de Música Antiga. É mestre e doutorando em Musicologia Histórica pela Universidade Nova de Lisboa, sendo actualmente o responsável global e porta-voz da comissão organizadora do Fórum Musicológico O Património Musical em Portugal: Inventariação, Projectos, Urgências, que se vai realizar no próximo mês de Outubro no Palácio dos Aciprestes, em Oeiras.

Tendo em consideração a crescente importância do movimento musical de recuperação do património musical, o JEEA decidiu entrevistar o professor João Paulo Janeiro para saber a sua opinião sobre: (1) Os principais objectivos do Fórum Musicológico do próximo mês de Outubro (2); A importância da recuperação do património musical português do passado (3); Os principais desafios colocados aos intervenientes da educação artística nas próximas décadas.

Jornal Electrónico de Educação e Artes: Quais os principais objectivos do Fórum Musicológico que vai decorrer no próximo mês de Outubro no Palácio dos Arcipestres?

João Paulo Janeiro: A realização deste fórum emerge de preocupações partilhadas pelos membros da comunidade musicológica que trabalham com o património musical em Portugal nas suas diferentes expressões: iconográfica, organológica e fundos musicais manuscritos ou impressos.

Todos os investigadores desta área sentem dificuldades relativamente à ausência de um levantamento exaustivo, tornando algumas das tarefas básicas da investigação em acções verdadeiramente ciclópicas, o que representa um enorme investimento em termos de energia e tempo de trabalho.

É verdade que existem catálogos de algumas das principais bibliotecas e arquivos musicais, a maior parte dos quais publicados com o apoio da Fundação Gulbenkian. Presentemente decorrem projectos integrados de inventariação de fundos musicais, sob orientação do Prof. Doutor Manuel Pedro Ferreira, designadamente o Levantamento Digital do Património Musical até 1600, desenvolvido no âmbito do CESEM (unidade de investigação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL), e do património organístico, sob orientação do Prof. Doutor Gerhard Doderer. Subsistem, porém, lacunas nos catálogos já publicados e em muitos locais desconhece-se a relevância musical dos arquivos ou pura e simplesmente da sua existência. Paralelamente, vão surgindo notícias avulsas de pequenos espólios, e cada investigador no decurso do seu trabalho depara-se com situações de património por cuidar. Mas a informação que existe sobre este património é esparsa, não se encontra facilmente acessível, nem está centralizada. Por outro lado, as ferramentas de trabalho on-line identificam apenas uma ínfima parte da documentação existente relativa à actividade musical em Portugal.

Esta situação de dificuldade de obtenção e de acesso à informação deixa o investigador sem outra alternativa que não seja a de trilhar percursos amiúde sinuosos de contactos pessoais para poder encontrar um determinado documento.

Urge, pois, discutir o modo como esta situação poderá ser ultrapassada a fim de que a informação fique disponível para comunidade científica e a investigação possa decorrer com maior celeridade.
Com o Fórum Musicológico a acontecer em Outubro próximo, pretendemos relançar a discussão sobre este tópico decisivo para a investigação, iniciando um recenseamento dos locais com património musical, inventariado ou por inventariar, partilhando experiências, cruzando metodologias utilizadas em outros projectos de inventariação e apontando alguns dos caminhos possíveis para colmatar esta lacuna.

JEEA: A conservação do património musical português do passado pode ter que efeitos benéficos para a cultura portuguesa?

JPJ: Uma cultura, enquanto elemento identitário de um grupo de pessoas, só existe na medida em que este grupo reconhece e respeita a herança dos seus antepassados, a qual aponta necessariamente para o que há de imanente nas características desse grupo. Não para que se fique preso a esse passado, mas para que se possa conviver com esses testemunhos, e nessa medida permitir uma construção da memória futura que se distinga e interaja com outras culturas.

Conhecermos o património musical português é permitirmo-nos amar o que somos em termos de tradição musical e não adoptar unicamente modelos de outros passados já certificados por tradições musicais diversas, às quais recorremos em gestos de aproximação e de validação do sentir cultural.

Neste sentido, o conhecimento e a conservação do património musical português constituem uma parte dos processos de referenciação histórica que reconstroem permanentemente a nossa identidade cultural. E é por causa da relevância que o património musical tem no seio da cultura portuguesa, seja pela magnitude da sua expressão, seja pela capacidade de interpretar e traduzir os traços mais profundos da nossa identidade que a sua conservação constitui, sem qualquer dúvida, um elemento fundamental na garantia daqueles processos.

JEEA: Vivemos numa época de fortes mudanças sociais, que inevitavelmente influenciam a área da educação e das artes. No estado actual do ensino, que desafios se colocam aos intervenientes da educação artística nas próximas décadas?

JPJ: É bastante difícil responder a esta pergunta de modo objectivo, mas diria que aos intervenientes da educação artística, em particular aos que lidam directamente com o Ensino da Música, o desafio essencial é colocar as artes no centro da formação do indivíduo em interacção com as restantes disciplinas, pois, como sabemos, são significativos os efeitos deste ensino em áreas como a matemática, a física, etc. além de que permite estimular uma prática auto-reflexiva, essencial para a evolução do pensamento colectivo de um povo.

Domingo, Junho 07, 2009

Teatro São Carlos - DON GIOVANNI - Récita de 1 de Junho

Numa ópera tão conhecida e representada como D. Giovanni é de esperar que a encenação inove e que procure adaptar a acção a uma ideia estética central contemporânea, a qual transmita a visão do encenador sobre esta ópera. Neste contexto, compreende-se naturalmente as muitas transformações poéticas e humorísticas levadas a cabo pela encenadora Maria Emília Correia, as quais resultaram melhor de uma perspectiva de dinâmica da acção do que propriamente num enriquecimento de perspectiva sobre Don Giovanni. Em suma, acertou na criação de um bom ritmo de desenvolvimento da acção. Correu pior na criação de uma nova leitura enriquecedora desta ópera.
Entre os cantores, houve uma grande desigualdade de performances. Nicola Ulivieri (Don Giovanni) esteve à altura do papel. Muito seguro como actor, quer nas partes humorísticas, quer nas sérias, demonstrou também na parte musical estar num excelente momento de forma. Kevin Short (Leporello), apesar de ser um excelente cantor, parece não se ter adaptado tão bem no plano vocal a este papel. Esteve melhor como actor do que como cantor. A soprano portuguesa Carla Caramujo (Donna Anna) esteve também a um excelente nível, demonstrando ter um timbre lindíssimo e uma voz forte.
Bastante pior esteve Katharina von Bülow (Donna Elvira) que foi um erro de casting completo. A mezzo-soprano está longe de se adaptar ao papel de Donna Elvira. Foi um autêntico fracasso nos saltos para os agudos, tendo arruinado os brilhantes trios e quartetos em que participou. Finalmente, destaca-se ainda Musa Nkuna (Don Ottavio) – muito bom cantor, apesar de em certos momentos ter denotado um pequeno problema na voz que lhe impossibilitou maior clareza no timbre e uma afinação mais cuidada – e a soprano Chelsey Schill, que desta vez esteve bem no papel interpretado.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Entrevista a José Sainz-Trueva


José Manuel de Sainz-Trueva é uma das mais destacadas personalidades da cultura madeirense, tendo realizado um trabalho importante em áreas diversificadas como a investigação de temas históricos madeirenses, a defesa e classificação do património cultural regional, a criação literária (principalmente no campo da poesia) e a divulgação cultural em vários jornais e revistas. Desde 2001, ocupa o cargo de director do Museu de Arte Contemporânea (MAC), espaço que possui uma vasta colecção de arte contemporânea portuguesa desde os anos 60 até hoje.
Tendo em consideração que os Museus são cada vez mais espaços de acção pedagógica essenciais na promoção das artes, o JEEA decidiu entrevistar o director do MAC para saber a sua opinião sobre: (1) a missão do MAC no contexto actual (2); os efeitos benéficos da acção do Serviço Educativo do MAC (3); Os principais desafios colocados aos intervenientes da educação artística nas próximas décadas.


Jornal Electrónico de Educação e Artes: Qual a missão actual do Museu de Arte Contemporânea na Madeira?

José Sainz-Trueva: O Museu de Arte Contemporânea do Funchal, encontra-se, desde 1992, instalado na histórica Fortaleza de São Tiago, imóvel classificado da RAM, reunindo uma colecção de arte portuguesa dos anos sessenta até hoje, abrangendo nomes de referência absoluta da arte contemporânea, como, Lourdes Castro, Joaquim Rodrigo, Fernando Calhau, Vieira da Silva, Rui Chafes, Pedro Calapez, etc., na qual se inclui também um núcleo de artistas madeirenses. Aspectos vectoriais desta instituição, são a conservação, estudo e divulgação deste acervo, tendo ainda por missão um variado leque de acções que visam a divulgação e valorização da produção artística madeirense contemporânea, e ainda dar continuidade ao enriquecimento da colecção com futuras aquisições.


JEEA: Tendo em consideração a experiência adquirida pelo Serviço Educativo do MAC, quais foram as grandes vantagens da introdução deste género de actividades nos museus?

JS-T: A criação do Serviço Educativo nos museus foi um passo em frente na constituição de um vínculo mais alargado e qualitativo com o seu público diferenciado, permitindo estabelecer relações priviligiadas com as escolas da RAM, que tem sido o fulcro da nossa atenção e objectivo, pela razão de que, sendo mais jovens, estão em condições ideais para receber e trabalhar informação numa área considerada mais sensível como é a arte contemporânea, e,por tal facto, pretendemos junto dessas camadas desmistificar a barreira entre a arte e os seus potênciais fruidores. Resumindo, o MAC tem como objectivos alargados dinamizar o espaço museológico numa vertente, podagógico/didáctica; proporcionar uma maior aproximação entre o público e as linguagens artísticas contemporâneas; sensibilizar para os valores patrimoniais, culturais e estéticos.


JEEA: Vivemos numa época de fortes mudanças sociais, que inevitavelmente influenciam a área da educação. No estado actual do ensino, que desafios se colocam aos intervenientes da educação artística nas próximas décadas?

JS-T: Naturalmente que não cabe aos museus e aos seus directos agentes, exclusivamente a divulgação, ensino e sensibilização para os aspectos da arte em geral, como factor determinante para a formação da personalidade e do carácter intelectual de cada ser humano. O futuro de cada um de nós, no tempo que se avizinha, é um permanente desafio face às novas descobertas e avanços da ciência e da técnica, à vertiginosa evolução do conceito de arte e ainda no referente aos meios e instrumentos da sua concretização. Só uma permanente acção articulada a começar no próprio ambiente familiar de cada um de nós, passando pelos vários graus de ensino até à própria vida pública, poderá atingir objectivos, no campo da ética e da estética, que nos valorize e enriqueça.
Claro que os museus devem assumir um discurso crítico e uma participação social activa que lhes confira um papel fundamental na divulgação cultural e na promoção da cidadania, nos dias de hoje.

Terça-feira, Abril 28, 2009

CD da 28.ª edição do Festival da Canção Infantil da Madeira

Já se encontra à venda o CD da 28.ª edição do Festival da Canção Infantil da Madeira. Tal como nos últimos anos, a Secretaria Regional de Educação e Cultura, através da Direcção Regional de Educação, foi a entidade governamental responsável por este evento, tendo o tema deste ano – a Astronomia – sido escolhido com base nas comemorações do Ano Internacional da Astronomia, que se realizam em 2009. A produção deste evento esteve a cargo do Gabinete Coordenador de Educação Artística (GCEA).

O CD contém catorze canções as quais são interpretadas por crianças com idades compreendidas entre os 6 e os 10 anos, oriundas dos Municípios do Funchal, Machico, Santa Cruz, Câmara de Lobos, Ribeira Brava e Santana e Porto Moniz. Estas crianças solistas foram este ano escolhidas através de um longo processo de selecção que incluiu um júri especializado em canto, tendo os professores de expressão musical e dramática das escolas do 1.º ciclo indicado os nomes dos seus melhores alunos para concorrerem ao Festival.

Quanto às canções, como habitualmente rondam os temas do imaginário infantil. Assim, desde o sonho de ser astronauta, passando por músicas dedicadas a animais como a borboleta ou o castor, até ao mundo dos brinquedos, são muitos os temas infantis abordados e que servem para povoar a imaginação das crianças. Além das catorze canções que concorreram ao festival, o CD conta ainda com o Medley das Canções participantes no Festival 2008. Por sua vez, as orquestrações e a gravação das vozes solistas, bem como do coro, foram realizadas no “Estúdio Paulo Ferraz”.

Finalmente, convém salientar que o Festival da Canção Infantil da Madeira é actualmente o evento do género com maior projecção internacional em Portugal, sendo transmito não só pela RTP/Madeira como também pela RTP/Internacional.


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Sábado, Abril 11, 2009

Entrevista a Rui Massena

Rui Massena é o Maestro Titular e o Director Artístico da Orquestra Clássica da Madeira (OCM), funções que ocupa desde o ano 2000. Na liderança da OCM, tem realizado um trabalho original no plano nacional tendo conseguido levar a orquestra clássica a públicos mais abrangentes, principalmente através de fusões sinfónicas – orquestradas por si – com estrelas portuguesas da música Pop, World Music e do Jazz, tais como Rui Veloso, Mariza, Mário Laginha, Bernardo Sassetti, Da Weasel, entre outros. Tendo em consideração os recentes sucessos alcançados na difusão dos instrumentos da orquestra a novos públicos, procurou-se saber a opinião do Maestro Rui Massena sobre: (1) o papel da OCM na Região Autónoma da Madeira (2); os efeitos benéficos das fusões sinfónicas realizadas pela OCM (3) Os principais desafios colocados aos intervenientes da educação artística nas próximas décadas.

Paulo Esteireiro: Tendo em consideração a sua já longa experiência à frente da OCM, qual deve ser o papel de uma orquestra com as características da OCM na Região Autónoma da Madeira?


Rui Massena: Sendo uma orquestra, sustentada na sua maior fatia , pelo Governo Regional Madeirense, através da Secretaria Regional da Educação, uma clara noção de serviço público é fundamental. Por isso, no meu entender, a OCM deve possibilitar a audição de tudo o que esteja ligado à música orquestral ou de câmara, dentro das suas possibilidades. A recriação das obras históricas, com um critério de rigor na abordagem ao texto original, assim como uma execução tecnicamente irrepreensível, a integração de jovens estagiários e de músicos formados, o apoio aos compositores, solistas, intérpretes de dentro e de fora da Regiao. Uma programação capaz de a ligar à comunidade, assim como uma adequação aos tempos modernos, são também os pilares fundamentais em que assenta a minha ideia de uma Orquestra, ainda para mais, a única na Região.


PE: Numa época em que há quem apelide as Orquestras Sinfónicas de Museus da Música Clássica, as fusões sinfónicas da OCM contradizem um pouco essa imagem. Quais os efeitos benéficos que pretende alcançar com esta sua linha de actuação?

RM: As fusões inserem-se numa época da história universal, em que tudo se mistura. O espírito de confluência é o principal motor dos nossos dias. É importante para nós músicos frequentarmos actualidades musicais e artísticas, para que possamos fazer viver a história com rigor, mas também construí-la com a nossa marca. Outros sons, ritmos, palavras, ambientes, farão de nós músicos responsáveis, mas artistas. Também importante é a possibilidade de apresentarmos, este manancial de cores, que é a orquestra a muitos jovens e adultos, que doutra forma nunca se aproximariam.


PE: Vivemos numa época de fortes mudanças sociais, que inevitavelmente influenciam a área da educação. No estado actual do ensino, que desafios se colocam aos intervenientes da educação artística nas próximas décadas?


RM: Julgo que a grande concorrência à educação artística é directamente a educação tecnológica. O apelo das novas tecnologias é incrivelmente forte e faz-nos esquecer o trabalho mecânico e por vezes pouco apelativo, em detrimento de um mundo de sensações, onde somos premiados a cada minuto. Será impossível combater estes pressupostos. É importante integrar e encontrar formas de reavaliar a importância da arte nos nossos dias. A palavra é sem dúvida integração dos mundos. Picasso disse em tempos, que depois de aparecer a fotografia, o retrato na pintura deixava de fazer sentido. Motivar para construir tendo um critério de recusa ou aceitação sobre o imediato, motivar para olhar e discutir o homem e os seus sentidos éticos e estéticos, a preservação da filosofia como paradigma do pensamento livre, a sublimação da perfeição humana que contêm a sua natural imperfeição, a admiração pela história, a construção da memória futura, o pensamento livre do homem. Máquina/Homem. Os sentidos. Serão estes alguns dos desafios à educação artística?!

Terça-feira, Março 03, 2009

Um Século de Música Sacra na Madeira

A Secretaria Regional de Educação e Cultura, através da Direcção Regional dos Assuntos Culturais, publicou uma edição intitulada 'Um Século de Música Sacra na Madeira', uma antologia exaustiva da música religiosa cantada nas Igrejas da Madeira desde o último quartel do século XIX até ao final do século XX. A obra é da autoria do Dr. João Arnaldo Rufino da Silva, o principal especialista sobre música sacra madeirense do século XX, que tem realizado vários artigos sobre este tema em publicações diversificadas.

De modo a salientar a importância desta edição, é talvez esclarecedor começar com alguns números, bem ilustrativos da complexidade da tarefa concluída agora pelo Dr. Rufino da Silva. No total, esta edição tem 896 páginas e foi por esse motivo dividida em dois volumes, cada um com cerca de 450 páginas. Outro número significativo é o número de peças musicais transcritas em notação moderna propositadamente para esta edição: 774 peças musicais! Os dois volumes agora publicados constituem o culminar de uma vida dedicada à prática e ao estudo da música sacra.


O Dr. Rufino da Silva compilou estas peças musicais ao longo de décadas, através do estudo das principais colecções musicais de manuscritos dispersas por várias instituições e personalidades da Madeira. Como é possível ler nos breves apontamentos que faz a algumas das músicas, estas encontram-se na posse de coleccionadores privados - Cónego Damasceno, Padre Sumares, entre outros - e institucionais - Seminário Diocesano, Gabinete Coordenador de Educação Artística e Direcção Regional dos Assuntos Culturais.


Algumas das músicas desta antologia merecem ser recuperadas também em gravação áudio. Por exemplo, a qualidade musical de alguns motetes do compositor madeirense Anselmo Serrão (1844-1922) ou mesmo algumas obras de Luiz Peter Clode (1904-1990) merecem ser gravadas e divulgadas em CD, devido à sua beleza musical e riqueza espiritual. Naturalmente que nem todas as peças musicais aqui compiladas são interessantes de um ponto de vista musical, se analisadas individualmente. Mas do ponto de vista histórico, este conjunto de peças musicais constitui uma preciosa antologia que permite reconstituir fielmente a história dos géneros musicais sacros utilizados nas Igrejas madeirenses ao longo do século XX.