Entrevista ao compositor Jorge Salgueiro - Paulo Esteireiro


O músico Jorge Salgueiro é um dos compositores portugueses mais dinâmicos da actualidade. Já editou mais de 30 discos e compôs cerca de 130 obras, entre as quais se destacam a Sinfonia n.º 1 “A Voz dos Deuses”, a Sinfonia n.º 2 “Maré Nostrum”, a fábula sinfónica para crianças A Quinta da Amizade, duas Aberturas para orquestra e O Requiem pela Humanidade. Esta última foi composta para a encenação – do grupo de teatro “O Bando” – da peça O Ensaio sobre a Cegueira, inspirada no romance homónimo de Saramago. Aproveitando a actual reposição, pel’O Bando, de O Ensaio sobre a Cegueira e a recente edição em CD do Requiem pela Humanidade, o Jornal de Letras entrevistou o compositor sobre o seu Requiem, José Saramago e o actual panorama da composição musical em Portugal.

Antes de se destacar como compositor, Jorge Salgueiro integrou várias Orquestras como intérprete e solista. Foi músico da Orquestra dos Jovens do Mediterrâneo, da Orquestra Sinfónica de Corfu/Grécia, da Banda de Jovens da Comunidade Europeia e da Orquestra Portuguesa da Juventude. Ainda como intérprete, ganhou em 1988 o primeiro prémio de Nível Superior em Trompete nos concursos promovidos pela Juventude Musical Portuguesa.
Em 1998, Jorge Salgueiro decidiu dedicar-se exclusivamente à composição, tendo trabalhado principalmente em três domínios: (1) na composição de várias obras sinfónicas didácticas para crianças, principalmente a convite do pedagogo Miguel Pernes; (2) na composição de obras para Bandas e Orquestras, sendo de realçar as peças compostas para a Banda da Armada Portuguesa, onde é compositor residente; (3) e na composição musical para teatro, onde têm ganho destaque as suas peças para o grupo de teatro O Bando.
É no grupo de teatro O Bando, onde faz actualmente parte da direcção artística, que o compositor tem vindo a desenvolver um trabalho invulgar de relacionamento próximo entre música e teatro. A sua recente edição em CD de Um Requiem pela Humanidade é um bom exemplo disso.


Um Requiem pela Humanidade

Jornal de Letras – Nas peças de teatro musicado, é muito comum que a música funcione como um veículo que auxilia o espectador na compreensão da parte literária. Acredita que o seu Requiem pode contribuir para uma melhor compreensão do romance O Ensaio sobre a Cegueira de Saramago?
Jorge Salgueiro – Não, nem pensar.

JL – E na peça de teatro?
JS – Aí é um pouco diferente. De forma diversa do cinema, que pode fazer uma versão mais realista do romance, o teatro trabalha com uma linguagem muito simbólica. No trabalho que venho desenvolvendo com a equipa de criativos d’O Bando liderada pelo João Brites, procuramos desenvolver uma linguagem teatral que absorva a contribuição de diversas disciplinas: a arquitectura, a escultura, a pintura, a música, a oralidade, a corporalidade, etc. Estes dois últimos aspectos são desenvolvidos como novos conceitos do trabalho de actor.

JL – Pode especificar?
JS – Por exemplo, o caso mais interessante, em minha opinião, é o da oralidade, desenvolvido pela Teresa Lima em que a caracterização da personagem passa pela compreensão, interpretação e correcta dicção do texto, como é óbvio, mas principalmente pela estudo do timbre, altura e ritmo da voz da personagem. Em relação à minha música para esta peça, ela procura acentuar os ambientes da peça, quer sejam de tragédia, de amor, de angústia, etc. Sei lá, estou a lembrar-me de momentos de tragédia e violência que envolvem multidões e que com elencos pequenos a música pode induzir o espectador numa imagem de caos e desgraça mais próxima do imaginário do romance. Em alguns momentos ela dá ao espectador o segundo plano da cena, por vezes a caracterização psicológica da personagem, outras vezes pode induzir, mesmo que subliminarmente o espectador em cenas passadas ou na previsão do futuro.

JL – Alguns elementos centrais de Ensaio sobre a Cegueira, tais como a «falta de visão» e «a cegueira branca» – transformado em nevoeiro na encenação –, encontram correspondências musicais no Requiem pela Humanidade. Quer aprofundar um pouco as relações entre texto e música por si criadas?
JS – No primeiro caso o que me inspirou foi mesmo a expressão “mar de leite” que o Saramago utiliza para definir aquilo que os cegos do romance sentem. Esse branco imenso fez-me lembrar um espaço sem ritmo, ou seja, sem quebras, sem linhas, sem contornos. Imaginei então, para esses momentos em que esses cegos definem “o que vêm”, uma música sem ritmo. Bom, isso é em si mesmo impossível, mas talvez sem compasso mas sem abdicar dele na escrita, sem regularidade, sem apoios.
Por outro lado, no que diz respeito ao “nevoeiro”, nessa equipa multidisciplinar que trabalha as criações d’O Bando procuramos a contaminação entre as diversas disciplinas. E eu deixei-me inspirar, ou fui inspirado pela ideia do Rui Francisco (cenógrafo) de induzir a cegueira nos espectadores através da criação de nevoeiro na sala do espectáculo. Sendo o nevoeiro uma massa gigante (não sei se isto se pode dizer assim) constituída por milhões de gotículas de água fez-me lembrar as Atmosferas de Ligeti. Escrevi então em divisi nas cordas de 12 partes de violino, 5 de violeta, 4 de violoncelos e 3 de contrabaixos que utilizei durante toda a obra, por vezes ao jeito de Ligeti, mas nem sempre assim. No fundo, uma escrita pontilística e textural marcada por estruturas sonoras densas.

José Saramago

JL – Num texto que escreveu sobre o Requiem pela Humanidade, afirma que atribuiu pouca importância à mensagem política do romance, privilegiando o lado religioso e humanista de Saramago. Onde vê o «lado religioso» de Saramago no Ensaio sobre a Cegueira?
JS – Tenho consciência que a obra do Saramago é profundamente política. Será mesmo esse o motivo da sua escrita, a raiz, a razão para ele escrever. Mas o que mais me impressiona na sua escrita é a sua capacidade de reflectir sobre a natureza humana e penso que é isso que confere universalidade à sua escrita.

JL – Durante o processo de composição teve algum contacto com José Saramago?
JS – Não.

JL – Porque optou por não ter contacto com José Saramago? Não seria importante?
JS – Não optei, não quis foi chatear o homem. Se eu pudesse almoçava todos os dias com o Saramago e mais uma plêiade de artistas que admiro. Sairia mais rico certamente. Principalmente se fossem eles a pagar os almoços (risos).

JL – E chegou a ter alguma reacção de José Saramago?
JS – No dia da estreia, no São João no Porto, pedi-lhe um autógrafo: concedeu-mo e foi muito simpático.

JL – Mas ele comentou a sua música?...
JS – Fiquei com a ideia de que tinha gostado… mais que isto terá de perguntar ao próprio.

Composição musical em Portugal

JL – O Jorge Salgueiro é dos poucos músicos portugueses que não é professor e que vive exclusivamente da composição. É difícil ser compositor em Portugal?
JS – É importante referir que isso só me é possível porque sou compositor residente da Banda da Armada Portuguesa. Trabalho também com regularidade para o grupo de teatro O Bando e para a Foco Musical, mas é a BAP que me permite esse sonho. Devo-o à confiança do seu actual maestro Araújo Pereira, mas certamente também ao facto de procurar sempre ir ao encontro da ideia de quem me solicita a obra. Essa é a maior dádiva, termos gente que acredita que somos capazes de realizar o seu projecto para uma obra de arte. Procuro sempre realizar esse encontro e tenho-me dado bem. Talvez seja isso que me permite ter esses trabalhos e outros mais esporádicos que vão aparecendo, de tal forma que, de há muitos anos para cá, são muito raras as obras que não escrevi sob encomenda.

JL – Que medidas políticas seriam importantes para o desenvolvimento da composição musical em Portugal?
JS – Em relação à qualidade dos compositores, penso que estamos a atravessar uma fase excelente em termos de qualidade e quantidade, mas penso que a sua pergunta vem mais no seguimento da anterior, ou seja, o que é que o estado deveria fazer para que mais compositores pudessem viver da criação. É isso não é?

JL – Sim…
JS – Não sou a melhor pessoa para propor as soluções para o problema, pois não reflicto muito sobre o assunto, mas vou tentar não fugir ao assunto. Bom, esse papel não cabe só ao Estado. Começa pelos próprios músicos e programadores das orquestras que não compreendem a importância de interpretarem autores vivos. […] Por outro lado, a famigerada lei da rádio deveria ser cumprida ou enterrada de uma vez por todas. A Antena 1 é um mau exemplo: por causa das audiências mudou completamente a sua programação, adoptou as playlist e retirou a música portuguesa dos horários nobres. Agora pode ter mais audiência, mas para que serve uma Antena 1 que é igual à TSF? Já a Antena 2 segue o caminho inverso graças ao excelente trabalho do João Almeida que se tem preocupado em estimular e divulgar os autores portugueses e mais importante que isso é que o faz com convicção e prazer. Onde o Estado deveria intervir era na internacionalização dos nossos autores, na edição de partituras e na gravação das obras em boas condições e garantir uma boa distribuição dessas partituras e CD’s.

JL – Entre os compositores portugueses actuais, quais são aqueles cuja obra mais admira?
JS – O Carrapatoso, o Vitorino de Almeida, o Corte Real e o Pinho Vargas.

JL – O Jorge Salgueiro tem estado algo distante do trabalho dos outros compositores portugueses da actualidade, sendo considerado um “outsider” do panorama musical português. Tem tido reacções à sua obra por parte de outros compositores?
JS – Ai sou considerado um “outsider”?... Uau!!! Isso é fantástico… (risos e silêncio)… bom, nada mais, está então tudo dito.

JL – Última pergunta: considera-se um compositor actual? Ou seja, um compositor que acompanha as técnicas do seu tempo?
JS – Actual sou de certeza porque estou vivo, por enquanto! Procuro estar atento mas isso não é uma preocupação. Se alguma vez a minha obra tiver de ser inovadora ou ter um sotaque próprio (sim, por isso de ter uma nova linguagem é só para um ou dois por século), acontecerá no devir do meu trabalho.
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